Seu trabalho de exímio violonista e compositor sempre esteve em discos importantes como “Luz do Cais” (1993), “Contos do mar” (1998) e “Comunhão” (2007), seu mais recente. Entre canções de ninar, outras de amor e muitas de mar, Mário se revela nas linhas sensíveis de uma poesia lírica e melodias de complexidade elevada.
Mário Gil segue as linhas dos mesmos novelos de lã de Renato Braz. Amigos e parceiros, eles fizeram juntos “Ana Bela” e seus cabelos de velejar e colocaram os panos dos barcos no mundo. Em “Comunhão”, último disco de Mário Gil lançado pela gravadora própria do músico chamada “Dançapé”, Mário reúne 12 canções de belezas inestimáveis.
Logo na primeira canção intitulada “Dançapé”, já entramos na atmosfera do compositor. Com sua linguagem recheada de cunhãs, ogunhês, jongos e ganzás, a música parece oferecer as cuias de barro para a alimentação. E só o começo. “De Flor em Flor” traz uma letra doce com um violão delineadamente forte. Versos como “Quem de fora/olha a gente/nunca entende/o nosso amor/desde agora/desde sempre/diferente”...
“Olho de Fogo”, na sequencia, também traz um misto de voracidade e suavidade. Com concepção rítmica de Renato Braz e viola caipira feita por Jardel Caetano, a letra lembra a infância quando menino a mãe o ensinou a fugir do olho-de-fogo.
E é assim, permeado pelo imaginário e pela criatividade de um mineiro tendo um mundo nas mãos, seus discos embalam, fascinam e trazem as bailarinas e os sacis para bailarem. Outro ponto forte da obra são as telas de Luiz D´Horta, “um artista tão inquieto quanto virtuoso”. Suas obras assinalam com cores e formas de vida dentro de telas, mundos.
Anabela
No porto de Vila Velha
Vi Anabela chegar
Olho de chama de vela
Cabelo de velejar
Pele de fruta cabocla
Com a boca de cambucá
Seios de agulha de bússola
Na trilha do meu olhar
Fui ancorando nela
Naquela ponta de mar
No pano do meu veleiro
Veio Anabela deitar
Vento eriçava o meu pelo
Queimava em mim seu olhar
Seu corpo de tempestade
Rodou meu corpo no ar
Com mãos de rodamoinho
Fez o meu barco afundar
Eu que pensei que fazia
Daquele ventre meu cais
Só percebi meu naufrágio
Quando era tarde demais
Vi Anabela partindo
Pra não voltar nunca mais
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