A nova esperança do jazz mundial

09 de março de 2010, às 00h00min
por Gil Oliveira
 
As primeiras frases cantadas de “Esperanza” são acompanhadas de algumas interrogações ao ouvinte: seria a nova promessa da música brasileira, latina ou do jazz? E o melhor é realizar que baixista, cantora e compositora Esperanza Spalding não impõe nenhuma fronteira ao trabalho, sendo uma das mais criativas artistas da atualidade. Seu segundo disco é uma reunião de modernidade, requinte e beleza que, de maneira certeira, nos leva a passear por essa trindade que forma a árvore de influências da compositora e musicista.

A negritude combinada com raízes latinas, formaram o par perfeito com a qualidade musical, a qual teve contato desde criança. Culpa de sua mãe que a criou sozinha dentro de um universo cultural bastante selecionado, em Portland, Oregon (EUA). Prodígio, aos 5 anos já tocava violino e aos 15 se tornou primeira violinista da Chamber Music Society Of Oregon. Porém, os sons graves do violoncelo sempre estiveram em sua mente, desde que assistiu ao magnífico Yo You Ma, época em que foi conquistada pela música.

Aos 20, tornou-se instrutora da renomada Berklee College of Music e abraçou o contra-baixo acústico como companheiro principal. Uma parceria no melhor estilo “a bela e a fera”, com Esperanza retirando belos acordes e texturas do robusto instrumento. A garota também tem passe livre entre os manda-chuvas do jazz e fusion americano, tendo atuado ao lado de artistas de alto quilate como Stanley Clarke, Pet Metheny, Mike Stern e Joe Lovano.

Sem medo nem timidez em exaltar seus heróis, a menina canta em inglês, português e espanhol. O disco abre com “Ponta de Areia” de Milton Nascimento, inusitada releitura com sabor todo especial (com Esperanza caprichando no sotaque). “I know you Know” vem em seguida com um groove funk de contra-baixo que desagua em samba e jazz. “Fall In” honra a tradição negra do blues, gospel e soul. De repente somos brindados com a jam session vocal e instrumental “I Adore you”, cheia percussão e referências africanas. Em “Body and Soul” tem-se a impressão de que outro disco começou a tocar: jazz cantado em espanhol com direito a solo solfeijado.

O álbum segue com “She Got To You”, “Precious”, “Mela”, “Love in Time” e “Espera”, temas que nos remetem à sonoridade do moderno jazz nova-iorquino, acompanhados da doce e contagiante voz da americana. Ao final, uma surpresa para os puristas: sem o menor pudor nem aviso prévio, um improviso instrumental levado às últimas conseqüências em “If That’s True”. Tema que deixaria Miles Davis orgulhoso, com Spalding mostrando toda sua habilidade como instrumentista. A cereja do bolo fica por conta de “Samba em Prelúdio” de Vinícius e Baden, onde a interpretação da cantora beira à perfeição.

Livre de qualquer amarra, “Esperanza” é a prova de que bom gosto e pesquisa podem resultar em uma obra única. Um sopro de frescor na saturada indústria musical, vindo de uma artista negra de apenas 23 anos, com aparência frágil e voz doce. Mas que se mostra uma gigante quando o assunto é transpor limites e derrubar preconceitos. E este é apenas seu segundo trabalho solo. Para ser apreciado com muita calma e atenção. E quem sabe um bom vinho.

Fotos: Johann Sauty
http://www.vivaviver.com.br/bela_musica/a_nova_esperanca_do_jazz_mundial/610/