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A volta triunfal da guitarra baiana

 
Assim como em Recife/Olinda, o carnaval baiano se dá nas ruas e não em sambódromos e clubes. Também por esta característica não há exatamente um desfile concatenado e uma agremiação vencedora, como no Rio de Janeiro e em São Paulo. No entanto, na folia momesca que passou a Bahia teve a sua campeã: a guitarra baiana!

Com sua afinação aguda, manipulada por dedos ágeis, a guitarra baiana reinou em diversas atrações e fez o folião relembrar velhos carnavais. É que 2010 marcou os 60 anos do primeiro desfile do trio elétrico, que não passava de um automóvel velho, uma fobica (o popular Ford Bigode), que tinha a bordo três instrumentistas a dupla Dodô & Osmar (Adolfo Nascimento e Osmar Macêdo), e mais o amigo Temístocles Aragão, convidado para aumentar o barulho.

O trio fazia muito barulho e atraía todas as atenções. Em cima do carro e com o som ampliado por alto-falantes, fizeram apresentações memoráveis, ganhando no ano seguinte, em 1951, o nome de Trio Elétrico. A multidão que os seguia via Osmar tocar a famosa guitarra baiana, aguda e estridente; Dodô empunhando o violão-pau-elétrico, de som grave; e Aragão manejando o seu triolim, os tons médios do violão tenor.

Os anos se passaram e o trio virou uma instituição no carnaval baiano, mas pouco a pouco foi-se esquecendo da guitarrinha baiana. Tanto assim, que o virtuose Armandinho, filho Osmar Macedo e herdeiro da tradição da guitarra baiana, acabou esquecido nos últimos carnavais, longe das ruas e da folia que seu pai mudou completamente como um dos fundadores do trio elétrico.

Os festejos dos 60 anos da invenção de Dodô & Osmar, que contaram com o eterno “Novo Baiano” Pepeu Gomes (outro ícone da guitarra) no papel de Rei Momo oficial da festa, incentivaram o retorno da tradição da guitarrinha. Não só voltou o filho de Osmar, mas os netos, os filhos bastardos da arte de Armandinho, que andavam escondidos por aí, sem trio e holofote.

Bandas como a Retrofoguetes, que com o Trio Foguetão balançou literalmente o chão da praça, chegaram a se apresentar com três guitarras baianas ao mesmo tempo. A banda instrumental, formada originalmente por Rex (bateria), CH (baixo) e Morotó (guitarras), recebeu mais dois convidados, o argentino Júlio Moreno (radicado na Bahia há 19 anos) e Robertinho Barreto (que também integra o projeto Baiana System).

Aliás, o Baiana System foi um capítulo à parte, com suas misturas de guitarra baiana, dub jamaicano e outras variações. Apresentaram-se no histórico Pelourinho e na Praça Castro Alves, que voltou a ser do povo em 2010, com direito até a um camarote do grupo afro Ilê Aiyê e uma varanda elétrica montada a partir da estrutura do Cine Glauber Rocha. No pequeno palco do lugar, batizado de Varanda do Glauber, tocaram o Baiana System, Arto Lindsay, Lucas Santana e outras atrações que revezaram com os trios.

Retorno -

Como o assunto aqui é a volta da guitarra baiana, cabe registrar que o regresso foi triunfal, também pela reativação do lendário Trio Tapajós, que arrastava multidões nos anos 70, rivalizando com Dodô & Osmar. Nas ruas, o trio retornou sem cordas, assim como o Foguetão do Retrofoguetes, o Trio dos Novos Baianos (capitaneado por Pepeu) e o Trio de Moraes Moreira, que, em desfile solo, fez a festa da multidão.

“Desfilar sem cordas”, para quem não é da Bahia e não conhece a expressão, significa não estar cercado por seguranças e com a exigência da cara fantasia (o abadá) para permitir o acesso. Foi desta maneira, sem cordas, que o carnaval baiano experimentou o espírito democrático de outros tempos, antes da perversa indústria da Axé Music se acomodar em caríssimos camarotes, assentados sob passeios públicos e passar a vender ao folião o direito de andar em via igualmente pública, atrás do trio elétrico.

O próprio “pai da Axé Music”, por todos assim considerado, Luiz Caldas, desfilou no independente Tapajós. De lá de cima do caminhão dedilhou guitarras baianas que devem ecoar pela eternidade, com frevos elétricos inesquecíveis. Seu desfile, seguido por uma multidão, tirou o bolor das guias e fez animados foliões-pipoca (sem bloco e às vezes sem um centavo) se sentirem reis, como nos velhos tempos.

É claro que a indústria do Carnaval Axé, que todo ano escolhe seus novos produtos e descarta outros, como fez, inclusive com o pioneiro Luiz Caldas, vai continuar dando as cartas, porque tem dinheiro para tanto. No entanto, o investimento público em trios sem cordas trouxe novamente a alegria às ruas e também os baianos, que andavam longe da festa.

É bom lembrar que os “nativos” ultimamente só trabalhavam no carnaval, segurando cordas e nas cozinhas dos camarotes para os milhares de turistas curtirem o som de plástico dos falsos artistas, vendidos por uma mídia massacrante e idiotizante.

Este ano, não, os baianos puderam sair novamente atrás do trio elétrico, porque ainda não estão mortos (segundo o frevo famoso entoado por Caetano Veloso), e com a sua dor também puderam balançar o chão da praça (como diz a letra de outro frevo elétrico, de Armandinho e Moraes). Todos alegres discípulos de Dodô & Osmar, convocados à festa pelos acordes da guitarrinha baiana, que, se Deus, Oxalá, Baco e Momo permitirem, há ainda há de ser sempre soberana na folia, pois assim é a vontade do povo.


*João Carlos Sampaio é pesquisador, jornalista, crítico de cinema e, no Carnaval de 2010, um quase folião animado.

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Comentários

 
guitarra baiana - 2 mês(es) atrás
site sobre a guitarra baiana, com um bocado de informações interssantes:
http://pt.guitarra-baiana.com

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Os anos se passaram e o trio virou uma instituição no carnaval baiano, mas pouco a pouco foi-se esquecendo da guitarrinha baiana.

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