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Fino Coletivo – O samba torto que esbanja aprendizado e alegria

 
Desde que o samba se fez samba, a noite dos brasileiros sempre foi desculpa pra uma festinha. Cervejinha, batucada, mulherada e malandragem. O cenário está armado e o samba é o personagem. E assim, de bar em bar, de mesa em mesa, a coisa foi se aperfeiçoando. Na mais leve cadência dos molejos do tempo, até chegar aos dias de hoje.

Uma bateria que encontra companhia na melodia de uma viola eletrizada e plugada num pedal de efeitos. Batidas digitalmente programadas que quebram e se requebram ao som de um cântico sambista. Uma pista com espaço de sobra pra toda comitiva sonora do ilê aiê. Eis que do ventre dessa singela mistura cultural nasce Fino Coletivo. No colo de uma temática nova no que diz respeito ao sambar, no seio de um novo samba que abarca o mundo inteiro.

“Quem te disse que era hora de partir? Hora boa é sempre hora de voltar.” Em Boa Hora, faixa um de Fino Coletivo, disco homônimo e de estréia da banda, já dá pra entender mais ou menos o que a mídia quer dizer com “samba torto”, quando se refere a sua música. O som se explica por si só, mas se for para expressar em palavras: trata-se de algo que milagrosamente está mais pra cá do que pra lá.

Tarja Preta é a segunda faixa do disco. Um sambinha muito bem suingado, cantado com todo calor de uma gota de suor que escorre pela testa. “Se você tem propensão pro desespero e pra dor, então beba desse funk, então beba desse samba.” Fino Coletivo é reflexo do samba em plena metamorfose. Mas independente do novo corpo, a essência continua a mesma: fazer o povo se divertir. “Esse samba é pra quem tira aprendizado e alegria do quem também não é bom”.

E o disco segue mudando, e apresentando faixa a faixa novas formas de apresentar sua delicada, original e convidativa harmonia. Em Dragão, faixa três, “Minha língua é um copo d’água na tua boca de dragão”. Mas na faixa quatro, Na Maior Alegria, o papo já é outro: “Cabeças tão pesadas. Corpos que sucumbiram. Olhares desenganados. Esperança, não vá embora.”

Partiu Partindo é a cinco, e tem uma estética propositalmente dançante. Desabrocha como uma poesia, e em cada verso exala o aroma de suas pétalas musicais. Uma justa demonstração do bem que se pode fazer ao mundo humano com generosidade, boa vontade e bastante sintonia.

Uirapuru, faixa seis, é um interlúdio, uma pausa em movimento, uma linha divisória entre as duas metades do disco. Mão De Luva, número sete, é um genuíno exemplar do samba torto, com direito a tapa no pandeiro e fôlego pra recomeçar. “E errado ou com a razão. Não se importa com a questão. Se é mentira ou se é trapaça.”

“Uma raiz é uma flor que despreza a fama.” A faixa oito, Uma Raiz, Uma Flor, certamente é um dos destaques desse disco. Um samba rock desintencionado que cativa pela espontaneidade marcante. “Não diga que as estrelas estão mortas, só porque o céu está nublado.”

Poema De Maria Rosa, faixa nove, começa suave e docemente, tal qual uma canção de ninar. Continua com toda delicadeza, e depois de declamar belos versos de uma carta de amor, culmina num cantar libertador, semelhante ao planar de asas de uma ave na imensidão azul do céu. É o samba menos samba, e o torto menos torto, do disco, o que a faz ser em compensação uma das composições mais especiais.

“Deixa a vida lhe trazer recordações.” Hortelã, a décima faixa, é como um passeio pelos pequenos fragmentos de memória que conservam os acontecimentos mais marcantes da vida. Uma volta ao passado para relembrar das sensações e impressões que precederam o caminho até aqui. Musicalidade de sobra, tranquilidade nas batidas e um trabalho de vozes primoroso.

Tempestade é a faixa onze e apresenta o lado nublado do samba. Uma chuva forte e intensa, abundante, falando sobre amor, simplicidade e liberdade. “Amar a vida não é traição.” Enquanto as nuvens cinzas se desfazem em água, a canção convida para um lugar seguro e abrigado, onde grandes janelas de vidro permitem ver as gotas de chuva refletindo as luzes noturnas da cidade, e onde impera a calmaria do saber lidar com as coisas.

O disco termina em ritmo quente, levantando o ânimo e chamando pro agito, mas com prudência. Medo De Briga, faixa doze, adverte aos desavisados que pode ser muito perigoso cutucar fera com vara curta, e que a corda costuma sempre arrebentar do lado mais fraco. “O pé da mesa quebrou. E agora quem tem razão? Incrédulos olhos no chão. Alguém sempre tem que sofrer.”

Boa Hora, Tarja Preta, Dragão, Na Maior Alegria, Partiu Partindo, Uirapuru, Mão de Luva, Uma Raiz Uma Flor, Poema de Maria Rosa, Hortelã, Tempestade, Medo de Briga. Uma dúzia de canções distribuindo a alegria, a criatividade e o alto astral que vem fazendo do Fino Coletivo uma das grandes revelações na música nacional.

A banda acerta em cheio logo no seu primeiro trabalho e deixa registrada a ressonância inconfundível dessa combinação inusitada entre músicos cariocas e alagoanos. Um septeto formado por Adriano Siri (voz), Alvinho Cabral (guitarra, voz e violão), Marcus César (bateria), Alvinho Lancellotti (voz) e Daniel Medeiros (baixo, voz e programações), que vez ou outra vira um octeto, quando pode contar com a colaboração de Wado, músico semi-integrante da banda que realiza trabalhos paralelos.

Fino Coletivo é parte da safra da NMB, a Nova Música Brasileira. Um movimento que vem não para desbancar a célebre e gloriosa MPB, mas para revivê-la, atualizá-la, adequá-la a um mundo que segue, pois, como dizia o poeta, o tempo não pára. Seu disco de estréia soa então como o prenúncio colorido de um vasto horizonte sempre pronto para florescer.


Fino Coletivo – Boa Hora (ao vivo)




Entrevista com o Fino Coletivo



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Comentários

 
Henri Matoso - 1 ano(s) atrás
Ouvi a faixa "Boa Hora" no rádio. Confesso que tenho uma certa reserva com o nosso gênero musical maior, o samba. Compreendo a relevância cultural, e até aprecio um sambinha dentro de certas situações - uma festa, por exemplo. Mas não compro discos de samba nem vou a shows. Vou quebrar a regra com o Fino Coletivo. Se todas as faixas seguirem a beleza de "Boa Hora", creio que temos aí o gênero renovado e conectado com essa nova geração, mais desplugada da música de raiz. Vou comprar o CD, degustar faixa por faixa e só depois ler na íntegra o comentário do Tiago, pra comparar as opiniões. Mas já deu pra ver que ele se rendeu ao trabalho do grupo! Parabéns, Fineza Coletiva!

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