Obras de arte pelas paredes, discos raros de Cartola, o piso do chão lembrando os saudosos anos 60 e um movimento que conseguiu oxigenar com poesia e música a passagem das pessoas entre as avenidas Duque de Caxias e a Dr. Barata na nobre Ribeira, às sextas-feiras, em Natal.
O movimento começou quando o músico violonista e apaixonado por Choro Camilo Lemos reuniu amigos músicos (no final de 2006, ainda no Beco da Lama) com a intenção de trocar idéias e tocar um dos gêneros mais fortes do Brasil e pouco ouvido pelas ruas, o Chorinho.
Nessa época, o envolvimento entre os músicos foi tamanho que se transformou num ritual sagrado. Sempre às sextas-feiras, quando as toalhas brancas cobrem as mesas e o peso do trabalho se torna desnecessário, o chorinho pediu passagem acalentando os ouvidos e os espíritos de quem compartilhava com as mais de duas horas a fio que seguiam madrugada adentro. Nessa época, participaram da roda o mestre Yamandu Costa, parte do Quinteto Villa Lobos, Glorinha Oliveira entre tantos outros músicos e apaixonados pelo gênero, enriquecendo ainda mais àquelas noites de iluminuras.
No repertório canções de Jacob do Bandolim, Pixinguinha, Antônio Calado, João Gilvan, entre outros estão inseridos de uma maneira democrática e com uma pesquisa profunda sobre o gênero. “Nosso repertório foi chegando a partir da influência de cada um. E é uma delicia trabalhar assim porque se torna uma descoberta a cada dia”, refletiu Camilo antes de começar a tocar na última sexta-feira.
Depois do Beco, o Chorinho desceu ladeira e foi parar na Ribeira, numa esquina remota que se transformou num dos pontos de encontro mais especiais da cidade. A nova localização atende pelo nome de Espaço Cultural Buraco da Catita e na próxima quinta-feira, dia 23 de abril comemorará um ano exatamente no aniversário do mestre Pixinguinha, considerado também o dia Nacional do Choro. “Não podíamos escolher data melhor para um momento tão simbólico e importante”, comentou Camilo Lemos.
O nome “Buraco da Catita” é em homenagem ao compositor Caximbinho, um dos grandes mestres do choro ao lado de Pixinguinha. Os músicos que estão juntos hoje na roda são maestro Neemias (sopro), Ronaldo Freire (flauta), J.P (clarinete), Jubileu Filho (trompete), Gilberto Cabral (trombone), Marcelo Tinoco (bandolim), Camilo Lemos (violão de sete cordas e guitarra), Paulo Sarkis (baixo), Silvio (bateria), Kleber Moreira (percussão) e participação especial de Leandro Bonfim. Estes mesmos músicos estarão no novo projeto do espaço chamado “Catita Gafieira”.
Gafieira
Junto às comemorações de aniversário do Espaço Cultural Buraco da Catita estará inserido na programação a partir da próxima sexta-feira, dia 24 de abril, o lançamento da Gafieira. Um espaço onde caberá música de boa qualidade e dança. “A idéia é fazer o evento uma vez por mês para que tenha força no calendário cultural da cidade”, contou Camilo. A estréia da gafieira terá participação do grupo de dança Evidance.
Um espaço independente, democrático e sagrado da música
Com os olhos rasos d´gua, assim como a canção de Cartola dita, o músico Camilo Lemos lembra com carinho de como todo o movimento começou. “Tudo surgiu da vontade de tocar um gênero precioso e pouco executado. Esse desejo teve conseqüências impressionantes que além de reunir pessoas de todas as idades, classes e gostos musicais, a gente conseguiu uma revitalização real envolvendo a Ribeira, um lugar sagrado e histórico que está sendo esquecido”, contou.
Ele conta que mesmo sendo uma iniciativa independente, sem apoio nenhum de órgãos públicos e privados, tudo o que envolve o chorinho foi pensado e estudado musicalmente. “Através da música, a gente conseguiu trazer para cá, para uma rua que antes era remota, pessoas de todas as partes da cidade”, apontou.
Para o percussionista Kleber Moreira, que acompanha o movimento do chorinho desde o início e é também músico da compositora Khystal, o chorinho é para ele um espaço de experimento e aprendizado imprescindível. “Aprendi e aprendo muito aqui nesta roda de choro. A dimensão desse espaço para a sociedade e para os músicos é incalculável”, descreveu.
Na visão de Heitor Andrade, arquiteto e doutorando sobre o tema da revitalização de Centros Históricos, a iniciativa do chorinho é de extrema importância por dar conotação cultural a um bairro que estava fadado a degradação econômica e social. “O chorinho dá oportunidade das pessoas conhecerem a Ribeira e perceberem o quanto o bairro é importante para a cidade. É uma maneira forte e inteligente de valorizar um espaço histórico, transformando o espaço, dando conotação de uma revitalização real e não só no planejamento”, explicou o arquiteto e freqüentador assíduo do chorinho.
Fotos:
Luciano Azevedo