Ray Charles: a música, antes de mais nada

06 de setembro de 2010, às 06h00min
por Dóris Noir*
 
“Ray”, um filme produzido e dirigido por Taylor Hackford, conta a história de Ray Charles, um dos grandes nomes da soul music, descrito como gênio por Frank Sinatra. Um filme que mostra a música em estado bruto. A vida do cantor se confunde com sua obra, onde mostrou influências, angústias, amores e dilemas.

Ray Charles nasceu em 1930 e morreu em 2004, um ano antes de o filme ser lançado. Antes de sua morte, o músico participou ativamente da pré-produção do filme. Um trabalho árduo de 15 anos ao lado do diretor Taylor Hackford.

O filme começa quando Ray está com 17 anos, cruzando os Estados Unidos buscando firmar-se como músico. Daí em diante, diversos acontecimentos da vida do cantor são mostrados com detalhes, como o preconceito que sofreu por ser negro e cego, a prisão por posse de heroína e toda a luta de anos para abandonar o vício.

Entre um flash back e outro, Ray aparece ainda criança, em sua infância pobre na Flórida. É neste período que são contadas a morte de seu irmão por afogamento, presenciada pelo cantor, o desenvolvimento da doença que o deixou cego aos 7 anos de idade e todo o esforço da sua mãe para torná-lo autosuficiente.

No filme, vale destacar a atuação de Jamie Foxx, que interpreta Ray Charles. O ator encarnou a voz, os gestos e até mesmo o andar característicos do músico e cantor. Uma curiosidade: Jamie é pianista e antes de ser aceito para o papel, teve que tocar piano por duas horas ao lado do próprio Ray Charles.

“Ray” descreve detalhes da vida do músico, mas faz algo mais quando não deixa a música em segundo plano. Além disso, a trilha sonora do filme é toda composta por gravações originais de Charles. Histórias das composições são um deleite para qualquer fã de boa música. Alguns exemplos são a criação do primeiro single “Mess around”, que foi composta em alguns minutos dentro do estúdio – com letra improvisada por Ahmet Ertegun, grande nome da produção musical americana que descobriu inúmeros talentos. "What'd I say" é outro grande destaque da trilha, que surgiu num momento de improviso durante um show e se tornou um dos grandes sucessos do cantor.

Outro aspecto importante e grande influência em sua obra são as mulheres. As “Reylets”, que além de vocal de apoio protagonizaram tórridos romances com Charles, têm participação decisiva na quebra de paradigmas, misturando o a música gospel com a soul music, o que incomodou a muita gente .

A peícula também mostra o crescimento musical do cantor, abandonando o estilo descompromissado de canções como "Unchain My Heart" e experimentando complicadas harmonias do jazz e música erudita em "Georgia on My Mind", além de baladas country como "Sweet Memories", e seu maior sucesso comercial, "I Can't Stop Loving You".

Impossível não se emocionar com a história de vida e não se contagiar com o ritmo dançante das músicas de Ray Charles. Uma grande história, que mostra o quanto a música pode ajudar a vencer barreiras. Um filme para ver e ouvir com muita atenção.

Fotos: reprodução

*Dóris Noir é jornalista, linguista e estudante de música e design. Atualmente está empenhada na reconstrução de seu site.
http://www.vivaviver.com.br/bela_musica/ray_charles_a_musica_antes_de_mais_nada/836/