É estranho de se imaginar um gosto que consiga reunir extremos opostos. Chega a ser até suspeito, na verdade. Mas isso, imagino, acontece por conta de uma tradicional visão estreita das coisas. Tenho quase certeza.
É como se um tipo de som anulasse o outro, segundo os mais críticos. É proibido juntar, num mesmo balaio, o sagrado e o profano? O popular e o erudito? O brega e o chique? O azul e o róseo? Só pensa assim quem enxerga a música muito tecnicamente. Como ousa gostar tanto de música pobre, quando poderia se dedicar aos mais sublimes e intrincados arranjos? Ô falácia…
O que mais espanta: Essa segregação, quase um apartheid, passa incólume mesmo diante dos ditos mente aberta. Eclético “normal” passeia entre MPB, bossa, jazz, rock e olhe lá. Um pouquinho mais de radicalismo e não é mais eclético, vira sem-noção. Qual o motivo?
Digo isso porque basta uma rápida olhada no repertório do meu tocador portátil de música e todo mundo já faz cara de escárnio. Pois digo mesmo, não me envergonho de nada. Eu rotulo as músicas de acordo com a maneira que elas me tocam, não importa o gênero, o número ou o grau. Vou tranquilamente de Emerson, Lake & Palmer a Mastruz com Leite; de Jethro Tull a Cavalo de Pau; de Caetano, Chico e Gil a Eliane, Rita de Cássia e Walkyria Santos. Pronto, sou doido.
Música é muito mais que estudo, muito mais que esse rótulo de bom ou ruim. O verdadeiro papel da arte é provocar, independente do invólucro. Música é momento. Para a solidão, a voz doce é um ombro amigo. Na euforia, a guitarra grita junto. Na tristeza, o violino chora abraçado. Para bagunçar, a sanfona é uma companheira inseparável.
Devíamos aprender a diferenciar menos as diversas manifestações artísticas, por mais absurdo que isso pareça. A música pode ser duvidosa, segundo os “entendidos”, mas pode ter marcado algo muito bom na sua vida. No meu caso isso tem muito a ver com a infância; Músicas que tocavam no rádio quando eu era criança me emocionam, hoje em dia. Trazem-me coisas boas sempre. Faça um teste, permita-se lembrar de músicas que te acompanharam, independente do rótulo. Gratas surpresas te esperam, aposto.
Fotos:
Federica Orlati;
Simone Artibani