Um pouco de Jazz em Kind of Blue

30 de outubro de 2009, às 02h41min
por Isaac Lira
 
Uma receita padrão para se gostar de Jazz, barata e eficiente. Ingredientes: boa vontade e internet. Na internet, a Polícia Federal que me perdoe, procure um bom site que contenha discografias. Recomendo o próprio Orkut, na comunidade Discografias, onde é possível encontrar praticamente todo o acervo musical disponível no mundo. Na comunidade, vá atá a letra “M”, entra na guia Miles Davis e faça o download de Kind of Blue. Aqui entra a boa vontade. Inicie a audição no volume máximo e deixe a música fluir.

Não é brincadeira. Está na internet, nas rádios (ainda existe isso?), na revista Bravo!, enfim, o disco Kind of Blue, de Miles Davis e um timaço de músicos, faz 50 anos em 2009. Por uma questão de temperamento, sou avesso a datas redondas. Considero sinceramente que essas enormes comemorações, como a chatíssima 50 anos de Bossa Nova, no ano passado, são nada mais nada menos que falta de assunto. No entanto, a pequena matéria na Revista Bravo! aguçou-me os sentidos e resolvi ir à caça do álbum do Miles Davis, considerado por muitos o melhor na história do Jazz e o mais vendido entre todos do gênero.

Pois bem, Kind of Blue, lançado em 1959, começa com uma música de nove minutos e meia, chamada “So What”. Para os meus ouvidos iniciantes, uma discrepância entre o que ouço e o que imaginava do Jazz logo se insere. Não existe muita virtuose. Ou seja, nada de solos mirabolantes, cheios de mudanças ritmicas e melódicas. A música flui quase que em linha reta. Sendo o Jazz a arte do improviso, fico confuso com o clima melódico denso das músicas de Kind of Blue. Já na próxima faixa, “Fredie Freeloader” consiga me acostumar com a ausência de letras. É um cacoete bem moderno, a música ser na verdade canção, onde a melodia e o canto se confundem numa coisa só.

Um passeio a mais nessa maravilha chamada internet pode render algumas linhas que serão a chave da compreensão da arte de Kind of Blue. Lá, no Google, é fácil encontrar que Miles Davis, um gênio que deu o tom do Jazz durante algumas décadas, de fato não era um virtuose. Ao contrário de muitos outros grandes nomes, Davis não era um monstro sagrado das notas tortas no trompete, seu instrumento. No entanto, compensava em termos de criatividade e ousadia. Da mesma forma, Kind of Blue parece mais um disco de climas, sem o exagero de curvas que caracteriza o Jazz e torna o gênero um tanto quanto impraticável para o grande público.

Mas quem disse que precisa ser difícil para ser bom? A música de Kind of Blue continua tocando. Estamos na quarta faixa, chamada “All blues”. A música já faz parte da paisagem. Você se acostumou. É hora de seguir mentalmente, com ouvido atento, as frases melódicas dos belíssimos solos. Percebam a suavidade do piano e da bateria e nos solos cheios de sentimento. A audição concentrada e cuidadosa dessa faixa, assim com da seguinte, “Flamenco Sketches”, é suficiente para chegar um nível mental semelhante à sensação de ter sua cabeça enfiada na explosão resultante do nascimento de uma nova estrela.

A preocupação de Miles Davis, cuja banda nessa época incluia John Coltrane e outras feras do Jazz, com a melodia remonta ao tempo que Davis aprendia a tocar trompete. O professor do futuro gênio não tolerava os vibratos, tão comuns à época. Preferia um toque limpo e suave. O tique foi absorvido por Miles Davis e praticado no Cool Jazz, subdivisão à qual está ligado o disco Kind of Blue. Dessa maneira, essa obra-prima da música do século XX é caracterizada pela simplicidade. Uma música fácil, sem ser simplória, acessível e ao mesmo tempo sofisticada. É impossível não se emocionar com as melodias, todas geniais. Há quem diga que Kind of Blue é o disco perfeito para ser iniciado no mundo do Jazz. Eu comprovei o dito. Agora só falta você.
http://www.vivaviver.com.br/bela_musica/um_pouco_de_jazz_em_kind_of_blue/501/