“What’s going on”: a obra definitiva de Marvin Gaye

02 de agosto de 2010, às 10h31min
por Gil Oliveira
 
Quando um artista se consagra dentro de um segmento cultural (música, pintura, literatura), em muitos casos sua obra será sempre lembrada pelo trabalho que mais obteve sucesso financeiro. Esta máxima talvez seja regra para indústria musical. 

Mas a mente criativa não obedece a um funcionamento linear. Em alguns casos, vemos o artista reformular completamente sua carreira apostando em outro segmento ou estilo diferente daquele que o consagrou. A inquietude da mente de um artista pode ser um motivo palpável para tais mudanças. No caso de Marvin Gaye as questões eram bem mais profundas e até mesmo um pouco perigosas.

O amor e o romantismo sempre foram temas principais em sua discografia. O início da carreira do cantor foi em 1961, na Motown ( empresa 100% negra, a casa de Stevie Wonder, Jackson Five e Diana Ross) onde rapidamente se tornaria o principal artista da gravadora. Nos anos dourados, Gaye emplacou inúmeros sucessos, entre eles "Stubborn Kind of Fellow", "How Sweet It Is (To Be Loved By You)", "I Heard It Through the Grapevine" e outros vários duetos com a cantora Tammi Terrell, incluindo "Ain't No Mountain High Enough" e "You're All I Need to Get By".

Em 1970 Marvin Gaye estava no auge. Com dez discos lançados e com uma carreira estabilizada, o cantor era a imagem do sucesso. Talvez por isso mesmo ele tenha sentindo que era a hora de abordar assuntos tãos nobres quanto o amor, mas que poucos queriam falar na época: as questões sociais, o preconceito e a guerra do Vietnã.  Antes de mudar sua própria forma de se expressar musicalmente, Marvin passou um período em reclusão, meditando sobre os problemas do mundo. Sua parceira musical Tammil Terrell havia falecido em março do mesmo ano, os tempos de inocência tinham ficado para trás com o final decretado em Woodstock e os heróis negros que lutavam por direitos iguais estavam sendo assassinados.

A expressão “basta” pulsava no coração de Gaye, um negro que tinha dinheiro, sucesso e uma carreira invejável. Porém faltava-lhe algo. Como se pode se sexy e sorrir quando se tem o peso do mundo sobre os ombros? Como transformar a tragédia em triunfo? Tudo isso foi traduzido na letra de “What’s going on?”, uma parceria com Renaldo "Obie" Benson e Al Cleveland. A música traz uma batida contagiante e envolvente, mas que é apenas um pano de fundo para o discurso de Gaye:

Mãe, Mãe
Há muitas de vocês chorando
Irmão, Irmão
Há muito de vocês morrendo, distante
Você sabe que nós podemos descobrir uma maneira
De trazer amor para cá hoje

Pai, Pai,
Não precisamos ser escalados
Veja, guerra não é a resposta
Pois somente o amor pode vencer o ódio
Você sabe que nós podemos descobrir uma maneira
De trazer amor para cá hoje

Linhas de piquete e sinais
Não nos puna com brutalidade
Fale comigo, então você verá
O que está acontecendo
O que está acontecendo ?

Segundo consta na biografia do cantor, ao ver a letra de "What’s going on” o chefão da Montown, Barry Gordy, teria declarado: "Música é para entreter e não para fazer pensar". De fato as letras da soul music eram recheadas de palavras como “balanço”, “amor” e “festa”. Como o astro maior de uma gravadora resolve deixar para trás tudo o que o tinha feito alcançar o posto maior?

Não importava. Para Marvin Gaye ou a música era lançada ou ele iria levar sua voz magnífica para outro contratante. "Eu não quero só cantar o amor nos shows. Quero ter uma proximidade com o público, mostrar minhas idéias e minha insatisfação. Acima de tudo, quero colaborar para melhorar", declarou em entrevistas na época. A pressão do cantor surtiu efeito e Gordy acabou cedendo. “What's Going On” foi lançada como single em janeiro de 1971, se tornando um mega sucesso comercial e de crítica.

O resultado financeiro também agradou a Barry Gordy, que pediu para que ele produzisse um álbum com canções no mesmo estilo.
O álbum “What's Going On” foi lançado e traz todo o conceito de uma urgente mudança na consciência humana. Com toda a produção a cargo do cantor, o disco foi gravado em apenas dez dias. Marvin foi acompanhado pela banda da gravadora os Funky Brothers, que pela primeira vez foram creditados em um trabalho da Montown. O disco foi planejado como uma obra conceitual inspirado na visão de um veterano de guerra. História baseada na experiência de Frankie, irmão de Marvin, que havia retornado do Vietnã após três anos de serviço.

O disco é uma crítica voraz aos acontecimentos da época na sociedade americana, como conflitos raciais, guerras, abusos de drogas, violência e até problemas ecológicos. E a viagem musical não fica apenas na Soul Music, imergindo intensamente no Jazz, World Music, e abusando do uso de percussão e elementos antes não comuns a música Soul.

“What's Going On” não apenas redefiniu a Soul Music, mas a levou para um patamar social jamais antes imaginado. Depois deste primeiro passo dado pelo cantor, outros artistas da Motown, como Stevie Wonder, foram influenciados a tomar o mesmo caminho, reivindicando o controle criativo de seus trabalhos.

Há alguns anos vários artistas se juntaram em um projeto musical de protesto contra o que está acontecendo no mundo hoje: atentados, guerras, 11 de setembro e preconceito racial.  No projeto, grandes cantores e bandas da atualidade cantam junto e atualizam a música “What´s Going On”. Marvin Gaye foi o catalisador de uma revolução sem tamanho, deixando seu trabalho na condição que poucas obras alcançaram: eterno.

Assista ao clipe de “What´s Going On” 



Fotos: divulgação/reprodução
http://www.vivaviver.com.br/bela_musica/what_s_going_on_a_obra_definitiva_de_marvin_gaye/801/