A coisificação das palavras - Uma viagem pelo mundo de Manoel de Barros

18 de abril de 2010, às 12h37min
por Emanuel Diniz
 
Não há uma maneira exata de descrever a poesia de Manoel de Barros , pois as palavras não são o bastante. Pelo menos não pra mim. Já Manoel tem o talento de fazer transcender os significados, e, em cada verso, o poder de se transformar no que bem entende. Seu estilo inovador é intrigante, capaz de dar um nó no juízo do leitor. Sua atmosfera faz qualquer neófito se apaixonar a primeira vista. Foi assim comigo.

A estranheza é tamanha quando nos deparamos com uma obra de Manoel, advogado, pedra, árvore, terreno baldio com insetos dentro. Ele passeia com intensidade pela vida e pela morte, pela coragem e pelo medo em constante metamorfose. Seus objetos são coisas corriqueiras e simplórias da natureza brasileira revestidas por um forte sentimento humanístico. Manoel grita pelos abandonados em comoção, incorporando o que a sociedade deixa de lado, sem deixar de sussurrar a beleza das coisas, inventando aquilo que não poderia ser dito.

Manoel faz o caminho inverso, suas palavras não servem pra designar coisas, mas suas coisas que designam palavras. Sua poesia tem algo de lúdico. É uma brincadeira. Manoel se diverte como se a semântica fosse uma gangorra em um parque ensolarado, sem deixar de levar a sério seu ofício, pois seu sangue é substantivo escuro que escorre.

Eu poderia tentar falar um pouco mais sobre Manoel e sua inestimável contribuição à nossa rica literatura, mas não é necessário. Manoel é um agricultor de idéias. Seu dom de poeta fala por si só.

Aprendo com abelhas do que com aeroplanos.
É um olhar para baixo que eu nasci tendo.
É um olhar para o ser menor, para o
insignificante que eu me criei tendo.
O ser que na sociedade é chutado como uma
barata – cresce de importância para o meu olho.
Ainda não aprendi por que herdei esse olhar
para baixo.
Sempre imagino que venha de ancestralidades
machucadas.
Fui criado no mato e aprendi a gostar das
coisinhas do chão –
Antes que das coisas celestiais.
Pessoas pertencidas de abandono me comovem:
tanto quanto as soberbas coisas ínfimas.


MANOEL DE BARROS

em Retrato do Artista Quando Coisa, Ed. Record, 1998

*Emanuel Diniz é graduando em Rádio e TV e não tem blog. Seu e-mail é dinix11@yahoo.com.br

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