A inesgotável criatividade do jornalismo literário.

16 de agosto de 2010, às 07h24min
por Emanuel Diniz*
 
Se hoje a imprensa é maculada por críticas severas às suas editorias alinhadas, muitas vezes, a interesses políticos e empresariais, existiu (e ainda existe) um fenômeno totalmente avesso dentro do mundo do jornalismo que encontrou seu lugar ao sol na segunda metade do século XX: o jornalismo literário, erigido sobre o frescor inconfundível da literatura norte americana da época.

Nomes como Hunter Thompson, Tom Wolfe, Gay Talese, Truman Capote, Marcos Faerman e Norman Mailer evidenciam o surgimento e a consolidação deste gênero underground, que emergiu da marginalidade criativa de seus atores para Best Sellers que mudaram o modus operandi e os conceitos, tanto do jornalismo quanto da literatura: outros termos também aceitos para as publicações desta seara são literatura não-ficticia ou romance-documento.

Mas o que é o jornalismo literário? Uma combinação de floreios estilísticos a fatos reais? Ou seria a aproximação fatídica em um universo ficcional? A resposta é: as duas coisas. Ainda mais do que isso, a criatividade somada à paciência. Criatividade necessária para transpor os acontecimentos a um universo lingüístico atraente e paciência para apurar acuradamente o fato em questão: geralmente são necessários anos de pesquisa e a conseqüência inevitável é o envolvimento afetivo com o objeto estudado.

Que o diga Capote, que após concluir “A sangue frio”, sua obra prima, se viu sem forças para continuar a escrever e de fato não chegou a concluir nenhuma outra obra relevante, embora tenha ficado rico com o sucesso do livro.

Gay Talese, outro escritor norte americano, escancarou a revolução sexual na America e a história da máfia em grandes obras: “A mulher do próximo” e “Honrados mafiosos”, respectivamente. Seu estilo é concentrado na elaboração minuciosa de perfis concatenados a uma elegância literária invejável.

Não poderia deixar de citar também o jornalismo literário de cunho poético e político, neste caso o nome não pode ser outro a não ser o norte americano Hunter Thompson. O profeta do chamado jornalismo gonzo não poupava recursos para descrever longas viagens alucinógenas, sempre tendo como pano de fundo uma metáfora ácida aos acontecimentos mundanos. Sendo um agitador de vida conturbada, só encontrou alivio com o suicídio, não sem antes deixar um impressionante legado. Sua escrita intransigente e dinâmica bebia dos beatniks a inspiração necessária para desmistificar a grande mídia como em “Medo e delírio em Las Vegas” e “Fear and Loathing on the Campaign Trail 1972”, onde autor e sujeito se confundem.

O Brasil também possui representante célebre no estilo. Seu nome é Fernando Morais. Mais reconhecido por seu traço biográfico contundente e virtuoso, não é de se espantar que se enquadre nesse gênero. Dentre suas grandes obras se destacam “Chatô, o rei do Brasil” onde explana sem pudores a vida e a obra de Assis Chateaubriand, o grande precursor da imprensa brasileira e o semi-romance “Olga”, onde narra a história da alemã Olga Benário, personagem real inserida no cenário de ditadura varguista brasileira que acabou indo parar nas telas de cinema.

O Jornalismo literário se apresentou como uma força criativa irrefreável que arrebatou o interesse e a consideração de leitores por todo mundo. Sua influencia ainda paira no ar, mesmo sob a vasta pressão dos ditames e formulas da grande mídia e – porque não – do academicismo literário. Sua força e influencia criativa até então se mostram inesgotáveis.

*Emanuel Diniz é graduando em Rádio e TV pela UFRN.


Fotos:

Bob AuBuchon

Mark O´Brien


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