A narrativa crua de Rubem Fonseca

30 de agosto de 2010, às 04h56min
por Emanuel Diniz*
 
Mineiro de Juiz de Fora, nascido em 11 de Maio de 1925, Rubem Fonseca se formou em Direito e passou por diversas profissões antes de se firmar na Literatura. Uma delas foi crucial para seu estilo, quando trabalhou por seis anos como policial.

A sua trajetória na corporação, mesmo que curta, deixou marcas severas na vida de Rubem. Não trabalhava na rua, e sim no gabinete. Sendo um policial destacado nas áreas de psicologia e relações publicas, pode observar atentamente à inúmeras tragédias e acontecimentos violentos na grande cidade do Rio de Janeiro que posteriormente seriam imortalizados em seus livros.

Só na década de 60 passou a se concentrar unicamente no oficio de escritor. Foi então que inaugurou o estilo que passou a ser chamado de “brutalista”. Seus contos e romances são sempre construídos através de fatos que transgridem a ordem, geralmente um assassinato misterioso a ser desvendado. Notavelmente seu estilo tem influencia de grandes nomes de romances policialescos como Sir Arthur Conan Doyle e Edgar Alan Poe, porém seus personagens não compartilham do heroísmo romântico nem do banditismo maculado, são modernamente amorais, produtos de uma sociedade opressora caótica onde as linhas de antigos estereótipos desaparecem e, mais do que a trama, o principal protagonista é o cenário, a paisagem infame atomizada por uma atmosfera de violência latente e erotismo na qual se desenrolam os fatos.

Seus livros lhe renderam não só notoriedade e vários prêmios, mas também levantaram inúmeras polêmicas, como é de se esperar de uma obra que escancare sem piedade um cruel retrato urbano. Os textos de Rubens muitas vezes são acusados de teor facistóide, criticas que são acentuadas pela sua controversa relação com a ditadura. O certo é que Rubem consegue com grande maestria unir personagens diversos – tanto marginais quanto a elite burguesa – em uma fascinante critica social, que, somada a um estilo fluente, recheado de citações e cenas inesquecíveis, o transformam num escritor completo.

Avesso a qualquer exposição na mídia, Rubem sempre se posicionou em um semi-anonimato. Aos 85 anos ainda continua a escrever com a mesma severidade de 40 anos atrás, sem poupar sua prosa brutalista. Sua obra não é indicada para os mais sensíveis, entretanto, os leitores que estejam mais abertos a um estilo pesado, porém emocionante, poderão encontrar na obra de Rubem Fonseca uma formidável experiência.

*Emanuel Diniz é cinéfilo, devorador de livros, maníaco por música e graduando em Rádio e TV pela Ufrn.

Fotos: Ricardo Motti

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