Calos e Afetos de uma jornalista observadora do mundo

21 de dezembro de 2009, às 10h00min
por Michelle Ferret
 
Leitora dos escritores russos como Tchecov e Dostoievski, Stella Galvão retira o sumo de suas escritas alucinantes e eleva-os como guias em suas crônicas no livro “Calos e Afetos”. Lançado recentemente por editora do autor, o livro é cotidiano invertido, memória pura e impura e molhado de águas turvas, sempre bem vivas.

Inspirada em obras universais como “Recordação da Casa dos Mortos” - seu livro de cabeceira - Stella busca no imprevisível a matéria bruta de sua escrita.  Reunindo 40 crônicas publicadas em revistas e jornais, o livro tem trechos interessantes que nos reviram. Como este:
“Só comprava sapatos um número menor que o dela, essa Cinderela às avessas. Deixava-se pisotear em ônibus, liquidações e outros ambientes apinhados de gente. Sufocava o grito, canalizando-o para o compartimento dos afetos. Fato é que sempre havia um calo remanescente, prova do amor dela e objeto da adoração dele”.

Ela busca no calo do pé um caminho para o afeto, nos segredos dos guarda-roupas, vestidos velhos para cobrir a figura humana e em casamentos frustrados um pingo de esperança jogado do lado de fora da casa pingando o asfalto. É realidade quase subversiva o conteúdo primeiro do livro que já se anuncia cor de rosa quando observamos a primeira vista. Mas ao folhear páginas adentro, as cores se transformam...

O prefácio do livro é assinado por Adriano de Sousa, quando o poeta ressalta a preferência de Stella por textos duros, secos, de um humor que “procura conscientemente as regiões mais agudas – a do sarcasmo, a da ironia – e que se verte em dicção masculina”. Segundo ele, “quase não há ternura, bondade ou compaixão nas criaturas escritas por Stella Galvão. Há a compreensão fria, distanciada, mas sem atenuar idiossincrasias cultivadas como flores de estufa. O amor é ridículo, o desejo é frustrado, a convivência é impossível (ou apenas forçada). O futuro resume-se a mais um dia sem que nada mude. Precários, incompletos, desfilam cenas banais, figuras mundanas, que extraem do cotidiano imperfeito uma gota de alegria, um fiapo de esperança na redenção pelo outro”, escreveu.

Os personagens quase sempre dilacerantes e participantes de um universo não visto habitualmente vem muito da inspiração da escritora em obras de Kafka e os brasileiros Machado de Assis e Clarice Lispector, quando a inquietação humana lhe interessa.

O livro traz ainda ilustrações especiais feitas pela própria filha, Júlia Galvão de 13 anos e da amiga Elisabete Pereira. A capa com pés carimbados formando um coração foi criada por Caio Vitoriano e revisão feita pela própria Stella.


Saboreie uma crônica de Stella Galvão do livro "Calos e Afetos"

Vestindo mamulengos



Camila tinha feito faculdade de moda numa empresa privada de ensino superior que gozava de algum prestígio entre meia dúzia de costureiras refinadas. Sonhava em ver cabides, ou melhor, modelos vivas, trotando com aquelas caras empertigadas e semblante entristecido, envergando modelitos criados por ela. No dia da formatura, o vestido preto à la Grace Kelly tinha provocado furor na platéia. É bem verdade quer os pais levaram a claque de primos ruidosos, mas não importava. Também soube que um ou outro professor torceu o nariz para aquela peça de vestuário totalmente déjà vu.

Dane-se, pensou a mocinha. Camila já freqüentava os bastidores do SP e do Caruaru Fashion Week como dublê de escrava de estilistas renomados, mas qual... Eles nem sonhavam com a presença da fofa de cabelo lambido e físico franzino. No máximo tropeçavam como que em um vaso que fica no meio do caminho. Ela tentava fazer tipo com óculos três vezes maiores que a região em torno dos olhos de menina pidona. Era no máximo olhada com um misto de pena e piedade. Drama!


A vida é mesmo dura, pensava Camila agarrada ao terceiro sanduíche de mortadela em um único dia. Três refeições, claro. O arremate era a pipoca doce, imitação de sobremesa. Ela triturava o milho enquanto deixava o pensamento vagar, se imaginando nos salões do Fasano em uma mesa com a presença de ninguém menos que a ícone maior do mundinho, a manguaceira Kate Moss. Tudo bem, até permitiria a presença da supertopmegamodel Gisele, desde que ela entrasse muda e permanecesse de boca costurada durante todo o banquete. Assim absorta, Camila chegava ao fim de mais um lauto jantar, amassando cuidadosamente o saquinho de pipoca e endereçando-o à lata de lixo mais próxima com um discreto toque do salto agulha 17. Chique!


Mas o caso é que a família de Camila estranhava um tanto aquela fixação da menina por coisas que habitavam o universo do guarda-roupa e da cômoda. Tudo bem que a mãe havia sido uma devotada costureira de madames, razão pela qual nunca faltara ‘molambinhos’ para engendrar vestimentas para as bonecas de pano compradas na feira de sábado. Mas, tendo esse gênero de modelo inanimado e molenga como cabide, a candidata a estilista não acertava o molde para cobrir com alguma dignidade o time de anoréxicas, ainda que recorresse a panos diáfanos. Entonadas em um legítimo “C”, elas pareciam mamulengos, provocando gargalhadas na platéia e choro histérico no backstage da passarela, local de concentração antes de ganharem as passarelas em tropel. Sórdido!


A mãe, uma senhora devotada a uma dessas religiões que produzem fanáticos, voltava-se para a direção do poente a implorar por um milagre. O pai, um padeiro empenhado em agraciar com toda sorte de docinhos moças com formas avantajadas que freqüentavam sua padoca, só lamentava ter que sustentar indefinidamente a confecção sem futuro de Camila. Por fim, ela entregou os pontos. Reuniu meia dúzia de amigas do tempo de jardim de infância e montou um grupo de teatro mambembe que percorre o interior do país. Em cena, muitos mamulenguinhos vestindo “C”. Na semana passada foram parar na seção de moda da Gazeta de Quixadá. Glória!

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