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Cartas a um Jovem Poeta, um livro guia de mundos interiores

 


Rilke além de poeta era amante dos horizontes. Gostava de viajar por lugares indecifráveis como a África do Norte e pela Europa, e até se tornou numa dessas excursões pela vida, secretário de Rodin, o escultor, um dos maiores do mundo. Foi nesse caminhar que ele aprofundou seus escritos, observando a vida em sua simetria e descontinuidade e assim escreveu. Escreveu prosas, versos, romances, mas foram suas poesias que voaram muito mais alto, deixando próximo da lua, uma espécie de sacrário. E é.

Alemão, nascido em Praga, sua obra “Elegias de Duíno”, deu inicio a sua consagração enquanto poeta e foi escrita entre 1912 e 1922. Mas sua referência mesmo é o livro “Cartas a um Jovem Poeta”, lido em todo o planeta. Deliciosamente belo, o livro é uma espécie de guia para poetas iniciantes, mas é muito mais. Ele reúne cartas escritas por Rilke a um rapaz chamado Franz Xaver Kappus, um jovem na verdade indeciso entre seguir sua vida como poeta e escritor ou abandonar tudo e viver a carreira militar, que apontava uma realidade mais, digamos, “firme”.

As cartas foram escritas entre o ano de 1903 e 1908, quando Rilke se abre para o jovem, mostrando seus caminhos internos, angustias e as sendas infinitas do mundo interior de um escritor. Por isso é tão raro quanto água pura no deserto. É um grito desesperado de um poeta iniciante desejando saber seu caminho e Rilke atravessa todas as paredes do mundo e traz nas cartas a simplicidade da vida e chega a respondê-lo, “ninguém o pode aconselhar ou ajudar – ninguém”. E Rilke assim, aconselha o mundo inteiro. “Não há senão um caminho. Procure entrar em si mesmo. Investigue o motivo que o mandar escrever; examine se estende suas raízes pelos recantos mais profundos de sua alma; confesse a si mesmo: morreria se lhe fosse vedado escrever? Isto acima de tudo: pergunte a si mesmo na hora mais tranqüila de sua noite: “sou forçado a escrever”? Escave dentro de si uma resposta profunda. Se for afirmativa, se puder contestar aquela pergunta severa por um forte e simples ‘sou’, então construa a sua vida de acordo com esta necessidade”.

O mais interessante no livro, talvez, seja não só o diálogo entre os poetas, mas o registro de Rilke sobre seus momentos, destinados a um simples desconhecido. Quando acompanhamos de perto sensações importantes de sua vida, suas viagens, seus banhos de chuva, observação íntima sobre cidades como Paris e também seu silêncio.

Outro ponto interessante do livro é que as cartas escritas pelo jovem poeta não são divulgadas, deixando assim, o pensamento de Rilke fluir de uma maneira absurda, quando adivinhamos o destinatário. Enfim, é um livro que serve a todos, aos poetas, não poetas, aos escritores de fim de semana ou aos que nunca desejaram escrever. É uma instigação de si mesmo, dos dragões acesos de nossas almas.


No final, Rilke nos presenteia com um soneto, a Franz Xaver Kappus

Treme sem queixa por meu coração,
Sem suspiro, uma dor muito sombria.
Só dos sonhos a nívea floração
É a festa de algum mais tranqüilo dia.
Tanta vez a grande interrogação
Se me depara! Encolho-me, e com fria
Timidez passo, como passaria
Por bravo mar, sem aproximação.
Desde, então sobre mim, turva amargura
Como esses céus cinzentos de verão
Onde uma estrela às vezes estremece.

Tateantes, minhas mãos vão à procura
Do amor, buscam palavras da oração
Que meu lábio deseja e não conhece.

Cartas a um Jovem Poeta
Rainer Maria Rilke
78 páginas

Foto: Ramón Durán

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As cartas foram escritas entre o ano de 1903 e 1908, quando Rilke se abre para o jovem, mostrando seus caminhos internos

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