“Não sei se poesia é literatura. Mas a gente faz poesia porque a vida não basta”, disse o maranhense Ferreira Gullar - ou José Ribamar Ferreira - em seu discurso de agradecimento após vencer pela segunda vez o mais importante prêmio da literatura brasileira, o Jabuti. “Em alguma parte algum” foi escolhido o livro do ano em 2011 na premiação literária da Câmara Brasileira do Livro. São 60 poemas que mostram o melhor da reflexão de quem aos 80 anos pode ser considerado o maior poeta brasileiro em atividade.
Dez anos se passaram desde o lançamento do livro de poemas "Muitas vozes" e de “Em alguma parte alguma”. O tempo traz um Gullar que fala de novos temas e de questões que suscita na realização do poema. É ele mesmo, o autor, quem costuma assinalar, como característica de sua produção poética o fato de que, sem que o busque deliberadamente, cada um de seus livros de poemas difere do outro, bem mais do que costuma ocorrer num mesmo autor. Faz questão de assinalar que não planeja seus livros de poemas, sendo eles, portanto, resultado da própria indagação poética e da reflexão sobre a vida e sobre seu trabalho de poeta.
“Ferreira Gullar afirma que o seu poema nasce do “espanto”, quando inesperadamente depara-se com um aspecto inesperado do real e, a partir daí, vão se sucedendo os poemas, até que a motivação se esgote. Isso explica a recorrência de determinados temas, que, tempos depois, voltam a ganhar atualidade”, conta a sinopse da editora do livro, a José Olympio.
Nestes últimos anos, a obra de Ferreira Gullar, já consagrada pela crítica e pelos leitores, foi distinguida com prêmios de alta significação na vida cultural, como o Prêmio Machado de Assis, da Academia Brasileira de Letras, e, este ano, com o Prêmio Camões, a mais alta distinção que se concede a escritores de língua portuguesa. Gullar foi também indicado para o Prêmio Nobel de Literatura, em 2002 e 2004.
Leia três poemas de “Em alguma parte alguma”:
Anoitecer em Outubro
A noite cai, chove manso lá fora
meu gato dorme
enrodilhado
na cadeira
Num dia qualquer
não existirá mais
nenhum de nós dois
para ouvir
nesta sala
a chuva que eventualmente caia
sobre as calçadas da rua Duvivier
Flagrante
o meu gato
na cadeira
se coça
corto papéis coloridos na sala
e os colo num caderno
a manhã clara canta na janela
estou eterno
Espaço
não há espaços iguais
o espaço entre o núcleo do átomo
e os elétrons
nada tem a ver
com o espaço
entre o sol
e os planetas
nem com o espaço
entre
minha mesa de jantar
e as paredes em volta
não há espaço vazio
cada espaço
é feito
dos corpos que estão
nele
que o deformam e o formam
é feito
de suas energias
e cargas elétricas
ou afetos
Mais informações sobre o Prêmio Jabuti, incluindo a edição de 2012, no site
http://www.cbl.org.br/jabuti.
Fonte da Imagem:
Estadão.