Icterofagia: poemas de Dirceu Villa

25 de janeiro de 2010, às 09h38min
por Michelle Ferret
 
Uma capa amarela, um rosto com os olhos cobertos e uma poesia bruta, quase líquida. Assim, se apresenta o terceiro livro do escritor paulistano Dirceu Villa. Tradutor de Ezra Pound, poeta da primeira geração modernista, Villa traz a característica forte em ser contemporâneo dialogando bem com a tradição.

Com 200 poemas entre britadeiras e realidades, Dirceu consegue nos levar para lugares ora encantadores, ora angustiantes. Por isso, sua poesia flutua. Influi, silencia. Ela nos leva ao silêncio claro de um dia aos pedaços.

Como o poema “Memória, a mãe das musas”, ele nos leva para a velha Babel e obra pequenos milagres nos olhos.

Primeiro sim foi
Quando
Deuses
Tolheram as letras
Das tuas
Preciosas palavras
E acho te partiram em mil
Pedaços
Espalharam
Teus sons
Sem sentido soando
Sim mas outros te ouviram
E suponho colheram
Tuas sílabas
Num tecido de ritmo
Indecisas e belas
Em fuga perpétua
Do sentido
Força informe
Que desfez
A velha Babel
Num
Como é mesmo
Num
Pequeno milagre.

O poeta brinca com as palavras, concretiza e faz do poema um processo nada estreito, ao contrário, infinito. Quando traz o jornalismo no lugar dos submarinos intitulando um dos poemas de “Yellow Journalism”. E se pergunta, “o que seria da vida humana sem os adjetivos?”

E vai além...
Quando silencia mais fazendo observações matinais num táxi:

Dois insetos copulam
Sobre a velha edição do Guia de Ruas
Amassada junto ao câmbio.

O céu intelectual regurgita um amarelo-baunilha
No chantilly branquíssimo das nuvens.
O taxista lembra várias piadas rústicas
Sobre viúvas com apetite adolescente.

E os dois insetos saem satisfeitos
Pelo quebra-vento.

Livro: Icterofagia
Autor: Dirceu Villa
Editora Hedra,2008
201 páginas


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