Minha Vida de Menina – o diário de Helena Morley

24 de maio de 2010, às 06h00min
por Dóris Noir
 
O livro Minha Vida de Menina, de Helena Morley, pseudônimo de Alice Dayrell Caldeira Brant, é um diário escrito de 1893 a 1895, quando a autora tinha entre 13 e 15 anos de idade. O dia-a-dia de Helena é ambientado em Diamantina (então província mineira) numa época de poucos recursos (sem energia elétrica e água encanada, por exemplo), o que aparentemente não chamaria a atenção do leitor, como pensava a própria Helena Morley: “não sei se poderá interessar ao leitor de hoje a vida corrente de uma cidade do interior, no fim do século passado, através das impressões de uma menina”.

As anotações da menina diferem dos relatos dos mais famosos diários publicados em livro, como: O Diário de Anne Frank (que se passa durante a Segunda Guerra Mundial) e O Diário de Zlata (escrito em meio a guerra de Sarajevo, entre 1991 e 1993). Porém, décadas depois, os escritos foram reunidos e selecionados pela autora e publicados em 1942, inicialmente para mostrar “às meninas de hoje a diferença entre a vida atual e a existência simples [daquela] época”. No entanto, o livro vai muito além disso.

O diferencial do Diário de Helena Morley está no seu caráter estilístico, que apesar de ser uma narração de três anos seguidos, possui uma estrutura de romance com direito até a final feliz. É bem organizado estruturalmente, fazendo com que o leitor não se perca na narrativa e vá seguindo cada dia contado como se fossem capítulos escritos para conduzi-lo até o fim da história.

Helena conta, de forma bastante espontânea e com algumas pitadas de humor, seu dia-a-dia junto à família, aos amigos e no colégio. É interessante notar o uso das palavras que marcam sua época e região, como “sanfona”, que são as colas da provas anotadas no papel; e também os costumes da época. Um bom exemplo é comentado pela menina (em 9 de dezembro de 1893), sobre sua prova de geografia, na escola.

Ela teve que decorar os nomes dos “Rios do Brasil”, porém achou mais fácil fazer as colas, ou sanfonas. E sobre isto, ela diz: “me ensinaram assim e eu achei o sistema bom”. O método de aprendizado por “decoreba”, da época, e as tradicionais colas para este tipo de prova são evidenciadas pela menina e demonstram o sistema educacional de então.

Minha Vida de Menina vale para pensar a vida de ontem e a de hoje, como as coisas mudaram ao longo dos séculos e até mesmo pensar por que muitas coisas não mudaram. Vale, também, pelo relato puro e simples da garota, que demonstra a vivacidade que as crianças possuem independente do século e que não deixa a descrição da sucessão dos dias se tornar monótona.

Versão para as telonas

O diário de Helena Morley ganhou adaptação para o cinema sob o título Vida de Menina, com roteiro de Elena Soárez e Helena Solberg. O elenco do filme conta com Ludmila Dayer (no papel de Helena Morley), Daniela Escobar, Benjamim Abras, entre outros. O longa ganhou prêmios nas categorias: Melhor Filme, Roteiro, Fotografia, Trilha Sonora, Direção de Arte e Júri Popular no Festival de Gramado de 2004, e conquistou ainda o prêmio de Melhor Filme pelo Júri Popular no Festival do Rio de 2004.

Fotos: Reprodução

Dóris Noir é jornalista, lingüista e estudante de música e design. Atualmente está empenhada na reconstrução de seu site
http://www.vivaviver.com.br/boa_leitura/minha_vida_de_menina_o_diario_de_helena_morley/707/