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O Baú de Ossos e as memórias quase genéticas de Pedro Nava

 


Pedro Nava nasceu em Juiz de Fora, no ano de 1903, formou-se em Medicina na Universidade Federal de Minas Gerais em 1927. Talvez por estar acostumado aos vários volumes e à riqueza descritiva dos livros de medicina, empenhou-se tanto em escrever as suas próprias memórias, distribuídas e amplamente detalhadas em seis volumes (Baú de Ossos, Balão Cativo, Chão de Ferro, Beira Mar, Galo das Trevas e O Círio Perfeito).

Não seria muito para uma só vida? Sim, talvez seja, mas não quando são abertos espaços generosos para as memórias de outras pessoas. Voltando os olhos especificamente para Baú de Ossos, não é difícil enxergar como a vida daqueles que estavam ao redor do autor ganha um destaque de protagonista, como se tais personagens contassem suas próprias memórias.

O que dá um tom ficcional às histórias vivenciadas por Nava. Ele dá detalhes de caminhos por onde não passou, descreve situações que nunca viveu, mas que foram vividos por pessoas da sua família.

São, em resumo, uma sequência de narrativas sobre tudo e todos que, de alguma forma, fizeram parte de sua vida em qualquer geração (sem esquecer-se de si mesmo, claro.) Afinal, se possuem igualdade de genes, eles são, então, partes do próprio Nava, merecendo um espaço individual nas memórias do autor.

Como não tendo conhecido a todos, logicamente, o escritor colheu as mais diversas informações possíveis e transformou-as em pequenos “contos” que vão montando o livro, deixando-o com um aspecto de romance. Este é um diferencial de Nava no assunto “memórias”. Normalmente, as narrativas deste gênero (literatura de memórias) remontam situações vivenciadas pelo memorialista num formato simples de diário ou de narrativas contadas sem muita exigência.

Nava faz de suas memórias quase um romance de ficção, quando descreve – por exemplo – passo a passo os sentimentos do avô que ele não conheceu. Uma explanação psicológica que só é possível aos romancistas que criam seus próprios personagens e detém o domínio exato de seus sentimentos e pensamentos.

Pedro Nava vai tirando as histórias de seu baú, romanceando a vida daqueles ossos que fizeram parte dele em outras gerações. Algumas vezes descrevendo detalhadamente ambientes, histórias, sensações como se tudo a ele pertencesse, outras vezes criando e recriando como se de tudo soubesse, como se tivesse realmente conhecido seus parentes, que lhe contaram suas histórias de vida numa cumplicidade quase genética que só os familiares têm entre si.

A foto mostra o grupo de frequentadores da famosa reunião de intelectuais cariocas: o "Sabadoyle" em 11 de de novembro de 1972. Nela aparecem Alvarus , Carlos Drummond de Andrade, Plinio Doyle, Pedro Nava, Raul Lima, Péricles Madureira de Pinho, Gilberto Telles, Alphonsus Guimarães Filho, Joaquim Inojosa, Enrique de Resende, Paulo Berger, Raul Bopp e outros. O crédito é de Jelber, fotógrafo exclusivo do Copacabana Palace Hotel, no Rio de Janeiro.

Fotos: UFMG, reprodução

Dóris Noir é jornalista, lingüista e estudante de música e design. Atualmente está empenhada na reconstrução de seu site.

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Comentários

 
raul lobo - 6 mês(es) atrás
Gostei do artigo, pelas informações sobre Pedro Nava, ainda que breves, mas principamente pela análise da narrativa ou das narrativas de Baú de Ossos, que estou lendo e adorando.

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Em suas memórias Pedro Nava elabora uma sequência de narrativas sobre tudo e todos que, de alguma forma, fizeram parte de sua vida.

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