Poemas pintados : o impressionismo na poesia de Cesário Verde

09 de julho de 2010, às 14h48min
por Dóris Noir
 
A literatura realista do século XIX buscava retratar o cotidiano da forma mais fiel possível, mostrando que o ser humano tem seu lado bom e seu lado ruim e que estes lados podem ser vistos de diferentes modos, de acordo com ponto de vista do observador. Nada é imutável nem possui forma fixa. Do mesmo modo pensavam os pintores impressionistas.

Eles apresentavam uma visão diferenciada do que a pintura estava acostumada a projetar. O ideal era pincelar o cotidiano, a paisagem – ou qual fosse o objeto – de acordo com a visão do artista. Para isso, a luz era o agente fundamental, pois de acordo com o grau de iluminação um mesmo objeto pode tomar diversas formas. Ou seja, o que vale é a impressão que o artista tem diante do objeto.

A intenção é mostrar que na natureza tudo está em constante transformação, que nada pode ser considerado fixo, nenhuma forma, nenhuma cor. À medida que a luz muda, as perspectivas sobre o objeto também mudam, assim como acontece na própria vida. As características do impressionismo na literatura se dão pelo caráter da impressão que autor faz dos objetos que observa.

Um dos grandes expoentes dessa tendência é o poeta português Cesário Verde. Seus poemas trazem as cores, a luz e os sons como elemento marcante, retrata situações do cotidiano em imagens que mais parecem a descrição de um quadro; materializa aspectos abstratos, utiliza paisagens e locais para traduzir estados psicológicos e dá espírito aos objetos. Para Cesário Verde as cores são elementos fundamentais. Em sua obra é possível ler versos como “Eu trouxe do jardim duas saudades roxas”, “E onde o luar parava os raios amarelos”.

O poeta pinta versos sobre o cotidiano de sua cidade, que ganha cores e formas. Em alguns momentos, a leitura dos versos mais parece a descrição de uma pintura, que não se restringe apenas a Lisboa, mas a tudo aquilo que é observado pelo poeta. Até mesmo nas declarações de amor a sua amada, como se vê no poema Arrojos:

Se aquela que amo mais que a luz do dia,
Me aniquilasse os males taciturnos,
O brilho dos meus olhos venceria
O clarão dos relâmpagos nocturnos.
Se ela quisesse amar, no azul do espaço,
Casando as suas penas com as minhas,
Eu desfaria o Sol como desfaço
As bolas de sabão das criancinhas.
Se aquela por quem já não tenho risos
Me concedesse apenas dois abraços,
Eu subiria aos róseos paraísos
E a Lua afogaria nos meus braços.

Cesário Verde descreve em seus poemas suas impressões quanto a tudo aquilo que observa. Ele constrói metáforas a partir de cores e luzes, pintando e materializando as suas impressões diante de tudo ao seu redor. Remetendo à visão de cada momento, que se transforma a cada instante.

Da mesma forma que os impressionistas viam seus objetos, que mudavam de forma e de cor de acordo com a luz e com o ponto de vista de cada um, na intenção de representar que o mundo, a sociedade e qualquer mínimo elemento da natureza são mutáveis. Tudo depende da impressão que cada coisa pode causar.

Uma compilação dos poemas do autor pode ser encontrada no livro “Obra completa de Cesário Verde” da Editora Livros Horizonte.

Fotos: Reprodução/ Tela: Pierre Auguste Renoir: "Almoço com os remadores"

Dóris Noir é jornalista, lingüista e estudante de música e design. Atualmente está empenhada na reconstrução de seu site.

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