Romarias e Imagens Eternas do poeta Francis Borges

04 de janeiro de 2010, às 09h45min
por Michelle Ferret
 
Ele gosta de observar o mundo. E não é pouco. Ele assiste o passar das horas e das procissões da varanda de sua casa imaginária. E vai além. Antevê as grades, os sinos, as romarias e consegue descrever o íntimo das pessoas que passam por ali. Entre paralelepípedos e o céu, seu olhar se desloca fácil e apresenta no livro “Romarias e Imagens Eternas”, cenas fartas de cotidiano, fé e um infinito.

Como o poema “Povo passeia com a padroeira”, Francis caminha com Nossa Senhora da Guia na avenida, em concentração seguindo pela rua principal... e diz:

Devotos passearão com Maria
Que é de costume anual:
À frente das alegorias
Mas não desfila o carnaval.
Apressam suas passadas
E chegam em hora pontual,
Pisando o calo das léguas,:
Longa tirada da zona rural.

Adiante exageram em suas farras,
Gente gastando a vida na súcia:
Trincheira de bebedeira na estrada
Obstruindo o passeio da via pública.


Além das procissões o livro caminha com nossos olhos por mundos diferentes, bandeiras hasteadas, tábuas de feiras, santas, porões, malhação de Judas, até chegar a um circo de retalhos que “cabe em qualquer terreno”:

Rodeado de retalhos, sem teto, no sereno.

Palhaço pinta o rosto, se encobre:
Esquece a pobreza da vida que escorre.

O rosto pintado não é só alegoria:
A vida usa máscara dia-a-dia.

Nesta casa sem lona, destelhada
Mora a felicidade: gargalhada!

Palhaço não escuta seu nome legítimo:
Apelido popular é seu registro.

Circo ou nômades retirantes?
De pano maior vê-se na cidade grande.

A lua mudava o pobre cenário, lar:
Dançarina bailava nua, devagar.

No domingo: “Marinês e sua Gente”!
Palhaço pedalando, meninada à frente.
“Todo mundo vai ao circo, menos eu”:
O menino triste não adormeceu.


E assim seguem 160 páginas de poemas de Francis Borges com seu olhar de léguas. Ele que nasceu em “Passagem”, município de Nova Palmeira (PB) escreve para jornais e é um dos profundos pesquisadores da vida e obra de Elis Regina.


Este é seu segundo livro de poesia, o primeiro intitula-se “Reluzir”, lançado em 1995.


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