Viagem ao Crepúsculo: uma viagem sem volta de Cuba
01 de fevereiro de 2010, às 09h00min
por Michelle Ferret

Sentir de perto a realidade de milhares de cubanos e saber que mesmo dolorida, existe poesia. Uma poesia quase bruta, mas que respira entre o sofrimento e um cotidiano igualmente duro. É assim que entramos no universo do povo cubano em “Viagem ao Crepúsculo”, livro do jornalista Samarone Lima, que como o poeta Manoel de Barros, consegue transcender as palavras e nos elevar a um mundo quase inusitado, inevitável e cheio de sombras.
Lançado este ano em alguns estados nordestinos, o livro fala a voz dos cubanos. Quem o abre, imaginando folhear uma história já batida, se assusta. Isso por que no Crepúsculo, a gente vê as cores mais vibrantes e é quando enxergamos as nuvens em forma de prédios, monstros e seres inimagináveis. É quando o escritor invade as casas dos habitantes desse País das incertezas e distribui em 231 páginas o que restou da revolução cubana, 50 anos depois, com todas suas dúvidas, mudanças e inclusive sentindo na pele dos cubanos a saída de Fidel Castro da cena política.
Nesse caminhar pelas páginas, o livro se dilui e vira um documento raro, desses que a gente deve tomar todo cuidado do mundo para não se estragar. E como escreveu Sérgio Buarque sobre o livro, “é antes de tudo, um depoimento – corajoso, isento e, ao mesmo tempo, apaixonado – da realidade de Cuba vista e apresentada através da vida e do cotidiano do seu povo, das suas alegrias e tristezas, dos sonhos e das decepções do cidadão cubano. Numa narrativa franca, comovente e, muitas vezes, impiedosa, Viagem ao Crepúsculo, mostra o drama social e humano deste país que tem sido, ao longo de cinco décadas, o mais claro produto da Guerra Fria da América Latina”, escreveu Buarque.
No lugar da apresentação nos deparamos com um depoimento do próprio escritor contando seu método em Cuba, seus sonhos em conhecer o país e de como foi o processo de chegada no lugar. Quando finalmente conseguiu aportar na ilha em 18 de fevereiro de 2008 e vivenciou os últimos dias de Fidel no comando.
Depois do delicioso relato, Samarone dividiu o livro em duas partes. Na primeira cabem as confissões e descobertas, o choque da chegada e no segundo a luta pela sobrevivência das pessoas, quando o escritor presenciou sessões de Candomblé, um réveillon amargo e esteve numa lan house clandestina em Havana. O terceiro e último capítulo, o escritor conhece o “interior” de Cuba, trazendo personagens fortes – assim como os outros capítulos – com relatos emocionantes como a de Celeste, quando o escritor não deixa escondida sua revolta com a maneira como os cubanos são prisioneiros de seu próprio país.
É realmente uma viagem ao crepúsculo, desses que a gente mergulha de cabeça e consegue sentir o cheiro das esquinas, olhar nos olhos de Celeste, de Jaime, de Paco e de uma história que não encerra em si, ela pertence a todos nós, humanos.
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