Hoje tive o prazer de conferir o bem falado “A origem” de Christopher Nolan, um thriller de espionagem com toques surreais que bebeu a água de fontes bem acertadas.
O filme começa com o didatismo necessário para explicar o seu universo ao espectador. De forma sutil os elementos são dispostos na tela, enquanto a novata Ariadne (Ellen Page) recebe instruções sobre o procedimento chamado de extração. Até então “A origem” se parece com todos os outros filmes sobre golpes e grandes assaltos. A fórmula é exatamente a mesma, o tempero que o difere dos demais é que em vez de bancos de concreto e cofres reais, a ação se passa no mundo onírico dos sonhos, onde a realidade é construída a partir da imaginação e das emoções.
Depois de tudo explicado então o jogo começa e é ai que Nolan, mais uma vez, demonstra total perícia em conduzir uma trama complexa. Nesse caso, uma que faria David Lynch encher os olhos. A plasticidade das belíssimas cenas oníricas situadas dentro do ritmo frenético é responsável por arrebatar a atenção do espectador a cada desenlace.
É ai que notamos as influencias de “A origem”. Sem ir muito longe podemos dizer que se trata de uma versão psicanalítica de “Matrix” ou até mesmo uma nova abordagem para “Cidade das sombras”. Quem sabe até um “Cidade dos sonhos” menos complicado ou um “Discreto charme da burguesia” sem a comicidade e a crítica sócio-política. Há ali também o traço de Gondry, bem registrado em “Brilho eterno de uma mente sem lembranças”.
Com personagens muito bem compostos e dirigidos – Leonardo Di Caprio (Dom Cobb) fazendo o suficiente e Joseph Gordon-Levitt (Arthur) inspirado - somos sugados para os níveis mais profundos do sonho. A operação agora é o contrário: em vez do roubo de idéias o objetivo é a inserção, e pra isso é preciso fincá-la no fundo do subconsciente, estabelecer uma origem, para que ela pareça auto-gerada.
Entre explosões e contagens regressivas, a engenharia da trama de Nolan encontra a catarse no momento certo. Metalinguisticamente a solução para “A origem” é plantar uma ideia na cabeça do espectador (a dúvida) em mais uma cena inesquecível, entre tantas outras. Apesar de parecer um filme complexo e até mesmo cansativo, não se deixe enganar, “A origem” é sessão obrigatória para qualquer cinéfilo e com certeza um dos melhores lançamentos do ano.
*Emanuel Diniz é graduando em Rádio e TV pela UFRN
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