Tenho o maior prazer em indicar esse filme que se tornou meu xodózinho. Não só porque é muito bom, mas porque tenho orgulho da forma que ele foi feito.
Em 2005, o diretor John Carney assistiu a uma apresentação da banda The Frames, em Dublin, Irlanda. Gostou da apresentação e pediu então ao líder da banda, Glen Hansard, que compusesse algumas canções, a partir das quais escreveria o roteiro de um filme. Glen o fez e as canções integraram um roteiro de 60 páginas.
John Carney não só teve esse insight como teve também grandes sacadas. Resolveu fazer o filme com um orçamento mínimo, de apenas 150 mil dólares, para não ter interrupções do estúdio e nem compromisso com a bilheteria. A decisão colaborou para o maior trunfo do filme: a simplicidade. Tudo é feito de maneira quase caseira, utilizando câmeras digitais e iluminação artificial mínima, cenários reais (há até uma cena em que crianças curiosas olham para a câmera, para a atriz e vice-e-versa) e muita câmera na mão, podendo acompanhar de bem perto a movimentação dos atores.
Inicialmente, o protagonista do filme seria Cillian Murphy (Café da Manhã em Plutão, Sunshine e Extermínio), mas ele desistiu do personagem e abriu os olhos do diretor para outro fato: ninguém melhor que o próprio compositor das músicas para encarar o personagem e interpretar as canções da maneira que deveriam ser interpretadas. Glen Hansard topou, mas para se sentir à vontade, indicou Marketa Irglova, também cantora (que nunca tinha atuado) e sua amiga, para fazer seu par.
O resultado é um filme intimista, romântico, com lindas canções e conduzido com uma sensibilidade ímpar, que em momento algum apela para os caminhos fáceis do clichê e da pieguice.
Todas as escolhas combinam perfeitamente com a própria história: ele é músico, toca violão nas ruas de Dublin e ajuda o pai em uma loja de conserto de aspiradores de pó. Ela é tcheca, vende flores pelas ruas para sustentar a família e tem o hobby de tocar piano. O acaso une “ele” e “ela” (sim, os personagens não têm nome e acredite, isso não faz a menor diferença) num caminho de auto-conhecimento e paixão pela música, buscando a realização de um sonho, que quase sempre começa de forma caseira e com muita dedicação.
O resultado prova que às vezes muita verba pode atrapalhar o filme e que o que realmente importa é desenvolver um bom trabalho e acreditar naquilo que se faz. O sucesso é consequência disso: o filme teve uma repercussão excelente, arrecadou 138 vezes seu orçamento e ganhou prêmios importantes como o Grande Prêmio do Público no Festival de Sundance, melhor filme estrangeiro no Independent Spirit Awards e Oscar de melhor canção, além de 2 indicações ao Grammy. Até Bob Dylan gostou tanto, que convidou a dupla do filme a fazerem o show de abertura de parte de sua turnê mundial.
Um filme emocionante, feito com coração e que toca justamente lá: no coração. Para os românticos e sonhadores de plantão.
*Fred Burle, de 27 anos, é mineiro, morou nove anos em Brasília. Recentemente mudou-se para Berlim, onde trabalha como produtor audiovisual. Mantém o blog http://www.fredburlenocinema.com.