É difícil acreditar que uma história é baseada em fatos reais, quando sua sequência inicial trás uma vaca caindo do céu, mas isso é só o começo e Um Conto Chinês se faz crível (quase) do começo até (quase) o fim.
O maior sucesso argentino do ano de 2011 – com mais de um milhão de espectadores naquele país – tem como protagonista Ricardo Darín, o figurinha carimbada nos filmes dos hermanos – assim como o Brasil tem Wagner Moura e Selton Mello, a França tem Gerard Depardieu e por aí vai. Mas Darín tem uma vantagem em relação a seus equivalentes: o bom gosto aliado à sorte nas escolhas dos roteiros. Ele dificilmente erra o tiro e desta vez não foi diferente.
O dono de uma casa de ferragens (Darín) leva uma vida pacata, até que sua rotina (e seus nervos) é alterada com a chegada de um chinês desconhecido. As situações que se sucedem deixam o ferreiro sem escolha. Ele precisará ajudar o oriental a encontrar o tio, que mora há alguns anos em Buenos Aires.
A premissa do choque de culturas e aprendizado através da convivência forçada é surrada e há que se dizer que já foi melhor utilizada em outros filmes, como os recentes Goodbye Solo e O Visitante. A linha narrativa é quase a mesma, só que com menos graça e simpatia. É bem verdade que o longa obtém êxito na transferência da sensação de incomunicabilidade, especialmente pela opção em não legendar as falas em mandarim, mas esta opção acarretou na desvantagem de se construir um personagem que deveria ser o contraponto do argentino ranzinza num personagem apático, irritante e, por vezes, burro.
Mesmo assim, existem pontos que prendem a atenção. Seja a história leve e despretensiosa, sejam os quesitos técnicos bem cuidados, como a fotografia de enquadramentos variados e a trilha harmônica, que só entra em cena em momentos oportunos, a concentração é mantida até um momento crucial, no qual uma única cena nos arrebata e nos faz entender o porquê da escolha por filmar esta história. Amolece o coração para as sequências restantes, cheias de suavidade e bons sentimentos.
Por mais que não se trate de uma obraprima, os nossos vizinhos podem se orgulhar de ter um filme bacaninha como o seu grande sucesso do ano.
*Fred Burle é mineiro, morou nove anos em Brasília. Recentemente mudou-se para Berlim, onde trabalha como produtor audiovisual. Mantém o blog http://www.fredburlenocinema.com.