Desde maio deste ano, um dos vídeos de Do Começo ao Fim, lançado pelo Youtube, teve quase 800 mil visualizações. O filme chamou a atenção da mídia e do público por diversos fatores, mas o principal deles era a história, ousada e pioneira no Brasil.
Filhos da mesma mãe, mas de pais diferentes, Tomás e Francisco foram criados juntos e desde pequenos desenvolveram uma intimidade maior do que o comum entre irmãos. Naturalmente (?), essa relação vai tranformando-se em uma relação incestuosa.
A mim pareceu, desde que li a sinopse e vi o trailer, que o cinema brasileiro estava prestes a lançar uma de suas grandes obras, que inclusive poderia tornar-se um marco no cinema e um filme cultuado nos festivais do mundo todo. O tema é um tabu e a maneira que o filme propagandeava ser conduzido (vide o trailer, de muito bom gosto) apontavam para uma grata surpresa. Não foi exatamente o que aconteceu.
As primeiras críticas que li foram bastante negativas, chegando a ser agressivas. Algumas eram mais amenas, mas também não falavam muito bem do filme. Mesmo assim, quis conferir o que fez o diretor Aluísio Abranches (Copo de Cólera; As Três Marias), já que, quando tratamos do tema “homossexualidade”, ainda mais atrelado a um tabu ainda maior (incesto), as opiniões oscilam ainda mais, pela subjetividade formada, de cada espectador.
A “estética Dove” e as interpretações de Telecurso (a criança mais nova é insuportável e as falas são mais próximas do perverso do que do infantil) foram o que mais me incomodaram no começo do filme, mas depois deixei isso de lado e passei a reparar em aspectos piores. A grande falha é tratar de um assunto tão complexo com tanta superficialidade.
Se fosse um filme somente sobre um relacionamento homossexual feliz, seria um grande filme, pois as cenas são delicadas e acompanhadas de uma trilha bonita (de André Abujamra). Mas a partir do momento em que o tema principal não é esse, e sim o incesto, imagina-se que haverá algum conflito, o que condizeria com a realidade.
O que está no filme não é necessariamente ruim. O que faz o filme ruim é o que não está lá: é a falta de conflito (os pais agem normalmente e não passam por um momento sequer de crise ou repúdio) e a falta da fase de mais dúvidas (a adolescência) é esquecida. Ou seja, tudo que pudesse ser mais complicado de desenvolver é jogado para escanteio, como se não existisse. Até quando tudo está prestes a tornar-se complicado e a mãe começa a questionar os filhos, esta é também tirada de campo. Por que? Para não atrapalhar o sossego que era a vida deles? Que cena é aquela, a dos irmãos conversando pela internet? Desnecessária. Que outra cena é aquela do pai conversando com os filhos num restaurante, quando os dois começam a discutir o relacionamento na frente do pai? Haja modernidade neste pai – que aliás ganha uma interpretação apática de Fábio Assunção.
O único ponto positivo é que, mesmo com toda a superficialidade, não foi um programa chato ir assistir o filme. Queria poder dizer que vi um filme maravilhoso, mas nem com muita boa vontade dá para dizer isso.
*Fred Burle, de 27 anos, é mineiro, morou nove anos em Brasília. Recentemente mudou-se para Berlim, onde trabalha como produtor audiovisual. Mantém o blog
http://www.fredburlenocinema.com.