Mais de trinta anos após as filmagens, um DVD com material audiovisual restaurado traz de volta a intrépida trupe Os Doces Bárbaros. O grupo formado por Gilberto Gil, Caetano Veloso, Maria Bethânia e Gal Costa foi formado em 1976 para celebrar os mais ou menos dez anos de carreira, que cada um tinha à época em que resolveram sair juntos numa turnê histórica pelo país.
Os Doces Bárbaros, o filme, é um primoroso registro do cineasta carioca Jom Tob Azulay, que chegou a ser exibido em 1978, mas com muitos cortes impostos pela censura do regime militar. Agora com imagens nítidas e brilhantes e um som ainda melhor do que o disponível no ano do lançamento, o documentário é um item indispensável para quem é fã dos quatro artistas baianos e da MPB.
Jom Tob Azulay usou três câmeras com filme de bitola semi-profissional de 16mm (depois seria ampliado para 35mm, que é a bitola em uso nos cinemas) e uma equipe formada por amigos para registrar o histórico show de estréia no Canecão (RJ). Depois, seguiu a turnê, a partir do Anhembi (SP) e por todas as cidades por onde o espetáculo foi apresentado.
A nova cópia do documentário traz dez minutos a mais que a primeira versão, com uma ênfase maior na passagem do show pela cidade de Florianópolis-SC. É do material filmado lá que vêm o material extra. As imagens resgatam a polêmica prisão de Gilberto Gil, por estar portando maconha, durante uma batida policial.
O filme traz um detalhado depoimento do delegado sobre a operação, que resultou na prisão de Gil. Mais ainda, traz o hoje absurdo julgamento do artista e o anúncio da pena, o internamento do cantor e compositor numa clínica de recuperação de viciados em drogas, tudo devidamente registrado por Jom Tob Azulay.
O cineasta cuidou também de colher depoimentos dos quatro “cavaleiros do pós-Calypso” (como diz a música-tema do show), em diversos momentos da turnê, e eternizar imagens das apresentações, que marcaram uma época efervescente do cancioneiro popular nacional.
O documentário Os Doces Bárbaros é um dos primeiros registros musicais de longa-metragem. É pioneiro no país, neste aspecto, e no formato também, quando a videoclipe e documentos de shows eram fatos incomuns.
Assistir ao filme Os Doces Bárbaros é quase um mergulho de volta aos anos 70. Impressiona a capacidade de improviso, que vai desde o figurino, criado pelos próprios artistas, à presença no palco. Há momentos dramaticamente intensos, mesmo para quem não aprecie a música, propriamente. A câmera de Jom Tob Azulay, completamente encantada com a performance de Maria Bethânia na canção Um Índio é um destes instantâneos.
O filme possui um ar de urgência e vida, que reflete o momento transbordante, do ponto de vista artístico e experimentalista, que viveram Caetano, Gil, Gal Costa e Maria Bethânia, naquele ano de 1976. As falas gravadas pelo diretor mostram a ansiedade por entrar em cena, o tom de desafio que os artistas mantêm o tempo inteiro e um prazer de estar juntos, como talvez só um fã poderia registrar.
Os Doces Bárbaros se justifica plenamente como documento de uma época, um registro inestimável da música e do comportamento da juventude nos anos 70. Mas para além disso, mostra-se uma narrativa envolvente e instigante no encaminhamento de idéias, talvez o mais feliz momento na carreira de Jom Tob Azulay, autor de filmes como Corações a Mil (1983, comédia musical com Gilberto Gil), e O Judeu (1995).
*João Carlos Sampaio é pesquisador, jornalista e crítico de cinema.
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Comentários
Gostei bastante de ver o video!
Tenho apenas 16 anos,mais gosto muito de MPB.
Ver pela primeira vez os quatro juntos,foi muito bom pra mim!!!