Filme resgata os eternos Doces Bárbaros

20 de dezembro de 2009, às 18h54min
por João Carlos Sampaio
 
Mais de trinta anos após as filmagens, um DVD com material audiovisual restaurado traz de volta a intrépida trupe Os Doces Bárbaros. O grupo formado por Gilberto Gil, Caetano Veloso, Maria Bethânia e Gal Costa foi formado em 1976 para celebrar os mais ou menos dez anos de carreira, que cada um tinha à época em que resolveram sair juntos numa turnê histórica pelo país.

Os Doces Bárbaros, o filme, é um primoroso registro do cineasta carioca Jom Tob Azulay, que chegou a ser exibido em 1978, mas com muitos cortes impostos pela censura do regime militar. Agora com imagens nítidas e brilhantes e um som ainda melhor do que o disponível no ano do lançamento, o documentário é um item indispensável para quem é fã dos quatro artistas baianos e da MPB.

Jom Tob Azulay usou três câmeras com filme de bitola semi-profissional de 16mm (depois seria ampliado para 35mm, que é a bitola em uso nos cinemas) e uma equipe formada por amigos para registrar o histórico show de estréia no Canecão (RJ). Depois, seguiu a turnê, a partir do Anhembi (SP) e por todas as cidades por onde o espetáculo foi apresentado.

A nova cópia do documentário traz dez minutos a mais que a primeira versão, com uma ênfase maior na passagem do show pela cidade de Florianópolis-SC. É do material filmado lá que vêm o material extra. As imagens resgatam a polêmica prisão de Gilberto Gil, por estar portando maconha, durante uma batida policial.

O filme traz um detalhado depoimento do delegado sobre a operação, que resultou na prisão de Gil. Mais ainda, traz o hoje absurdo julgamento do artista e o anúncio da pena, o internamento do cantor e compositor numa clínica de recuperação de viciados em drogas, tudo devidamente registrado por Jom Tob Azulay.

O cineasta cuidou também de colher depoimentos dos quatro “cavaleiros do pós-Calypso” (como diz a música-tema do show), em diversos momentos da turnê, e eternizar imagens das apresentações, que marcaram uma época efervescente do cancioneiro popular nacional.

O documentário Os Doces Bárbaros é um dos primeiros registros musicais de longa-metragem. É pioneiro no país, neste aspecto, e no formato também, quando a videoclipe e documentos de shows eram fatos incomuns.

Assistir ao filme Os Doces Bárbaros é quase um mergulho de volta aos anos 70. Impressiona a capacidade de improviso, que vai desde o figurino, criado pelos próprios artistas, à presença no palco. Há momentos dramaticamente intensos, mesmo para quem não aprecie a música, propriamente. A câmera de Jom Tob Azulay, completamente encantada com a performance de Maria Bethânia na canção Um Índio é um destes instantâneos.

O filme possui um ar de urgência e vida, que reflete o momento transbordante, do ponto de vista artístico e experimentalista, que viveram Caetano, Gil, Gal Costa e Maria Bethânia, naquele ano de 1976. As falas gravadas pelo diretor mostram a ansiedade por entrar em cena, o tom de desafio que os artistas mantêm o tempo inteiro e um prazer de estar juntos, como talvez só um fã poderia registrar.

Os Doces Bárbaros se justifica plenamente como documento de uma época, um registro inestimável da música e do comportamento da juventude nos anos 70. Mas para além disso, mostra-se uma narrativa envolvente e instigante no encaminhamento de idéias, talvez o mais feliz momento na carreira de Jom Tob Azulay, autor de filmes como Corações a Mil (1983, comédia musical com Gilberto Gil), e O Judeu (1995).

*João Carlos Sampaio é pesquisador, jornalista e crítico de cinema.
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