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Fim da segunda guerra é pano de fundo de 'Tempos de Paz'

 


É fim de guerra em 1945. Chegam ao Brasil navios de refugiados de diversos países atingidos por ela. Um destes refugiados, o polonês Clausewitz (Dan Stulbach), não consegue passar pela alfândega brasileira, por despertar desconfiança nas autoridades, que acham que o que ele diz ser (agricultor) não condiz com suas mãos finas e com a sabedoria que demonstra ter (ele fala um bom português e até recita Carlos Drummond de Andrade). Caberá a Segismundo, um ex-oficial da polícia de Getúlio Vargas, a tarefa de interrogá-lo, a fim de extrair a verdade e decidir se cede ou não o “salvo conduto” para a estadia do polonês no Brasil.

Ao término do filme, minha maior vontade era a de assistir à peça. Isso porque o texto é muito bom e as interpretações deixam claro que trata-se de uma peça maravilhosa. Mas isso não implica que transpô-la para as telonas seria garantia de bom cinema. Não o é, nem de longe.

Daniel Filho continua impregnado com seus vícios televisivos (os planos das cenas continuam com as opções 'quadradas' que a tevê oferece), mas dessa vez o grande mal que lhe assola é o teatro. Alguém aí conte para ele, por favor, que ele não é o Kurosawa, para unir as artes com competência?

Acho que, primeiramente, ele deveria aprender a fazer cinema, para depois incorporar outros elementos à sétima arte. O seu maior trabalho em Tempos de Paz seria o de deixar o filme andar com as próprias pernas, escorado nas interpretações dos protagonistas e nos ótimos diálogos (vejam bem, isso não quer dizer que o roteiro seja bom) escritos por Bosco Brasil, mas ele não se contenta em não deixar sua marca.

Resolveu acrescentar, desnecessariamente, personagens que antes só existiam na peça em citações, como a irmã de Segismundo (Louise 'teatral' Cardoso) e um sujeito misterioso (ele próprio, Daniel 'forçado' Filho) que está à procura de Segismundo, por motivos revelados em flashbacks posteriores, igualmente desnecessários e que subestimam a inteligência do espectador, já que tudo o que essas cenas mostram, nós descobrimos pelas falas do personagem de Tony Ramos, sem precisar da didática “teletubbiana” adotada pelo diretor. Esse acréscimo de trama só faz mal ao filme, que é obrigado a ver o seu final prolongado e pieguizado em prol do desfecho de personagens secundários, que não tinham a menor importância na trama.

Tempos de Paz seria um grande filme, não fosse a mão pesada e a mania de popularidade do diretor, que perde a oportunidade de finalmente trabalhar o cinema como arte e não como entretenimento vazio.

Além da direção, somos “brindados” com a precária fotografia, com seus planos médios rebaixados (os personagens têm muito corpo e cabeças constantemente cortadas), sua baixa resolução (algumas cenas parecem ter qualidade de Youtube) e sua péssima iluminação.

Mas todas essas falhas não estragam por completo o filme, já que, além dos excelentes diálogos, há uma boa direção de arte, que ajuda bastante na reconstituição da época, uma montagem eficiente e um duelo de grandes protagonistas: Tony Ramos, que faz o seu feijão-com-arroz muito bem feito, como sempre, e Dan Stulbach, que dá um show no papel do polonês, com uma interpretação digna de muitas premiações. Quando o filme começava a dar sinais de cansaço, eis que surge um monólogo declamado por ele com um brilhantismo tamanho que arrepia e dá vontade de levantar da cadeira e bater palmas, como no teatro. Só esse monólogo merece o ingresso, mas preferia vê-lo no teatro. Um trabalho admirável dos atores, que trouxeram para o cinema a química que tiveram ao encenar no teatro a peça que deu origem ao filme, Novas Diretrizes em Tempos de Paz.



*Fred Burle
, de 27 anos, é mineiro, morou nove anos em Brasília. Recentemente mudou-se para Berlim, onde trabalha como produtor audiovisual. Mantém o blog http://www.fredburlenocinema.com.

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Falhas do longa não estragam por completo o filme, que tem excelentes diálogos e boa direção de arte.

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