Uma tragédia como a que se registrou nos últimos dias, no Haiti, faz lembrar que o grande desafio do homem neste início da segunda década do Século XXI é mesmo a sua capacidade de solidariedade, de encarar o mundo todo como se fosse a nossa casa. Tentar reverter um pouco toda a depredação que a Humanidade causou, ao explorar sem medidas, os recursos naturais.
Há seis anos, o genial cineasta francês Jean-Luc Godard, em sua angústia por reunir imagens de significância, realizou um filme sobre a aventura humana no século anterior. Cem anos marcados por guerras, destruição e falta de entendimento. Um legado sombrio, que ele batizou de Nossa Música (Notre Musique, 2004). Na verdade, uma “música” dissonante que é a banalização da violência, a plasticidade da dor.
Nossa Música, que está disponível em DVD, inicia-se exatamente com uma reunião de imagens-símbolo, vazias em expressão por já trazerem um significado previamente conhecido pelo repertório de quem assiste. São imagens das guerras do Século XX, explosões nucleares, cenas de campos de batalha, morticínio e violência.
Tudo isso aparece numa espécie de colagem de vídeos, que ocupa toda a primeira parte do filme, batizada simplesmente de Inferno. Para Godard, nada existe de mais terrível do que a imagem que referencia um discurso prévio, que coloca o público, até pela rapidez da montagem, apenas como observador.
As guerras e suas cenas exaustivamente repetidas e unidas de forma abrupta, sem uma condução rítmica identificável, são a própria propagação do mal, pelo vazio que se estabelece na comunicação.
Na segunda parte do filme, o cineasta filma o que seria o Purgatório. Para tanto, vai à cidade de Sarajevo, arrasada pelos conflitos étnicos-políticos que esfacelaram a antiga Iugoslávia.
Fisicamente, o lugar passa por um amplo esforço de reconstrução e recebe uma conferência sobre Imagem. Nela, o próprio Godard é um dos personagens, um dos protagonistas que vão tentar definir conceitos para a construção imagética, ou seja, amparar a recriação da cidade e das pessoas num sentido metafísico.
Só que, em sua fala e no discurso fílmico que elabora e leva à tela, ele sublinha o quanto é nociva a assimilação das representações prontas, vindas de fora. Com isso, resgata uma de suas posturas mais incisivas de sua obra recente, a luta contra a imposição de padrões globalizados, liderada pelos Estados Unidos da América e sua ânsia em estandardizar conceitos e referenciar imagens que signifiquem algo, antes mesmo de sua decodificação, algo que considera indesejável, mais que isso, abominável.
O purgatório é, portanto, o lugar em que se evidencia os mecanismos de escravização cultural, a colonização e desrespeito às idéias primitivas, através de imagens impostas pela voz dominante das grandes potências econômicas. Logo a seguir, Godard nos mostra o seu conceito de Paraíso, a terceira parte da fita.
O Paraíso se expressa na imagem de uma mulher jovem, mostrada anteriormente no purgatório, que parece ter encontrado a paz original, o sentido original das coisas nas imagens paradisíacas, cheias de verde e água, onde o primitivo parece intacto.
Só que, quase que cinicamente, Godard mostra que este sentimento de reencontro é mantido pela vigilância de fuzileiros navais norte-americanos. Sua derradeira observação sobre tudo que pode ser o paraíso na Terra.
Um fecho de ouro para uma obra-prima moderna, imperdível, que nos faz refletir sobre os passos que demos e continuamos a dar, especialmente num momento tão cheio de imagens de dor como estas que nos chegam desde o Haiti.
*João Carlos Sampaio é pesquisador, jornalista e crítico de cinema.