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Johnny Depp e Christian Bale juntos em "Inimigos Públicos"

 


É um problema quando depositamos uma expectativa muito grande num filme e ele não corresponde. A sensação de frustração é bem maior do que quando vemos algo que não era pra ser nada... e fica mesmo no nada! Decepção é o termo mais correto.

Foi assim que fui assistir Inimigos Públicos: coberto de expectativa. Afinal, trata-se de um filme de Michael Mann (do ótimo Colateral e O Informante), com três atores que gosto muito (Johnny Depp, Christian Bale e Marion Cottilard) e com um argumento que parecia muito bom, mas que não se concretizou num bom roteiro.

Inimigos Públicos é passado na década de 30, nos EUA, quando uma onda de assaltos e roubos a bancos assola o país. As ações dos bandidos dominam as manchetes e a população acompanha as notícias das caçadas a eles como se acompanhassem uma novela. Um dos casos mais famosos é o de John Dillinger (Depp), perseguido pelo agente Purvis (Bale). É basicamente essa caçada que acompanharemos no filme, que abrirá ainda, espaço para um romance (sim, porque filme de ação com romance rende mais bilheteria). O roteiro é baseado no romance homônimo de Brian Burrough.

O que era para ser um filme de ação intricada, desses que prendem a atenção do começo ao fim, com atuações admiráveis e diálogos inteligentes, torna-se uma ode a um dos maiores bandidos da história dos EUA. E olha que teve crítico elogiando o filme justamente por fazer essa ode (sim, exatamente com este termo) ao bandido. Impressionante como os valores se invertem. O pior é que estamos tratando de um retrato de personagens reais.

Era para tratar como memória, mas distorce os fatos e somos induzidos a torcer pelo vilão, talvez pela má distribuição de papéis, já que Depp é mais carismático do que Bale e este é retratado como o mau da história, enquanto Depp é quem tem o romance com a mocinha e tem com ela uma historinha de amor. O próprio diretor inicia o filme dizendo (escrevendo) que trata-se do retrato da "época de ouro dos roubos". Parece ver glamour nisso.

Além disto, as interpretações não passam de regulares (à exceção de Billy Crudup, péssimo e inchado), o desenvolvimento é maçante e há um excesso de cenas de tiroteiro, que deixam qualquer um cansado depois de mais de duas horas de barulho. O roteiro é cheio de furos (o que aconteceu com o chefe do FBI (Crudup), que depois de certo tempo some do filme e nunca mais volta?), com personagens mal explicados (os bandidos ligados a John Dillinger, Baby Face Nelson e Pretty Boy Floyd) e diálogos mal elaborados.

Cadê a cena de confronto que todos torcemos, entre bandido e policial? Não há A grande cena, com um diálogo de dar medo entre os dois, como geralmente acontece nos filmes de gânsters. Até a personagem de Marion Cottilard (longe da maquiagem pesada de Piaf) é esquecida por um bom tempo, voltando mais perto do final, para o desfecho e as explicações pós-créditos do que aconteceu com os personagens. A grande emoção vem através dela, na última cena do filme, mas ficam faltando muitos "algos" para o filme ser bom.

O melhor do filme está nos quesitos técnicos, com uma ótima trilha sonora, som bem trabalhado, figurinos impecáveis e uma reconstituição de época invejável (que puta direção de arte!). Os cenários são refeitos pensando em tudo: dos carros aos postes de rua, dos cinemas (onde se passam as duas melhores cenas) ao forro de cama, do relógio de bolso ao rádio Zenith. Nestes quatro quesitos não será difícil o filme ser indicado ao Oscar. O som mescla a clareza, obtida com as novas tecnologias, com os agudos acentuados e robotizados, como o dos veículos de comunicação da época.

Um filme com uma equipe técnica invejável, mas que jogou todo o trabalho pelo ralo, em prol de mais ação e consequentemente, dinheiro em caixa. Michael Mann não soube unir o útil ao agradável. Na verdade, não teve (até agora) êxito nem na qualidade e nem nas bilheterias.


*Fred Burle
é mineiro, morou nove anos em Brasília. Recentemente mudou-se para Berlim, onde trabalha como produtor audiovisual. Mantém o blog http://www.fredburlenocinema.com.

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Comentários

 
Olívio - 4 mês(es) atrás
E que se dirá de filmes nacionais (com raras exceções) que tratam do crime e do tráfico em que o bandido é sempre o heroi ? O bandido é glamuroso, a polícia é sem graça. Cumprir a lei é babaca. Estamos no país da impunidade onde quadrilhas que assaltam o país são festejadas nas urnas.
 
Olívio - 4 mês(es) atrás
E que se dirá de filmes nacionais (com raras exceções) que tratam do crime e do tráfico em que o bandido é sempre o heroi ? O bandido é glamuroso, a polícia é sem graça. Cumprir a lei é babaca. Estamos no país da impunidade onde quadrilhas que assaltam o país são festejadas nas urnas.

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Filme se passa na década de 30, nos EUA, quando uma onda de assaltos e roubos a bancos assola o país.

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