Eu sou entusiasta mais do que confesso do cinema russo e isso se explica muito facilmente, pois de lá surgiram obras inesquecíveis e cineastas extremamente talentosos que contribuíram enormemente para a evolução da linguagem cinematográfica. O que seria do cinema sem a rica teoria de Eisenstein? Sem as idéias de Vertov? Sem a fineza dos filmes de Tarkovksy?
Acontece que toda essa glória parece ter ficado no passado. Digo isto porque certo dia me intriguei sobre o que é produzido lá na Rússia hoje em dia. Desde a queda da cortina de ferro e a abertura democrática, não temos mais noticias das obras de lá. O último fôlego talvez tenha sido os filmes de Mikhalkov, ainda no inicio da década de 90, quase sempre carregados de uma crítica severa ao regime antigo. Será que a Glasnost amainou a vontade e o ânimo dos realizadores? O fim da guerra fria interrompeu o escoamento do cinema russo para o resto do mundo?
Resolvi pesquisar para sanar essas dúvidas. E realmente é difícil encontrar apontamentos sobre este tema. Parece que o cinema russo contemporâneo é um enorme buraco vazio, salvo por uma referência que é quase onipresente. Essa referência é “A Arca Russa” ( Russian Ark - 2002) filme de Aleksandr Sokurov. Deparei-me com vários relatos sobre esta a obra, a maioria eram resenhas laudatórias. Não contive a curiosidade e tratei logo de dar uma conferida.
O filme é espetacular, não somente por se tratar de um enorme e impecável plano sequência que dura 1 hora e 40 minutos passeando por todo o museu Hermitage, mas também porque é um filme deliciosamente didático, que consegue deflagrar momentos importantes da história da Rússia, através de uma analise artística, social e histórica. Além do mais o filme desfruta a proeza de recriar atmosferas de tempos distintos, irrompendo a diegese entre uma sala e outra, enquanto o nosso convidado europeu conversa – com seus comentários sempre perspicazes - com o narrador/personagem atrás da câmera.
Todo esmero estilístico combinado a um excelente roteiro faz de “Arca Russa” uma verdadeira obra-prima. Nem mesmo os pequenos deslizes, como a perda de foco em alguns momentos, podem atrapalhar o resultado final. Ao terminar de assistir tive certeza de que o cinema russo não está morto, moribundo talvez, mas que ainda tem muito a contribuir para a constante evolução da nossa querida sétima arte. Entre revoluções e reações, a história da russa passeia em uma enorme arca sob uma forte lufada de criatividade neste novo século, num dos celeiros mais importantes da história do cinema mundial.
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Emanuel Diniz é graduando em Rádio e TV e não tem blog. Seu e-mail é dinix11@yahoo.com.br
Fotos:
Ed Yourdon