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O (saudoso) cinema de urgência de Rogério Sganzerla

 
“Amo o que os outros detestam e odeio o que os outros apreciam”. A frase não é do cineasta Rogério Sganzerla, mas está na boca de um personagem de seu derradeiro filme, O Signo do Caos, lançado em 2003. Atesta o seu deslocamento no Brasil e no mundo e o seu anima de artista inconformado, que se manifestou até a morte, ocorrida em 2004, quando tinha 57 anos.

Parte do seu espírito rebelde vem à tona no belíssimo documentário Belair, de Noa Bressane e Bruno Safadi, que começou a circular em festivais no final do ano passado e em breve deve ter distribuição nacional nos cinemas. Por enquanto já dá para relembrar Sganzerla locando alguns de seus filmes, lançados em DVD. A obra-prima O Bandido da Luz Vermelha (1968), por exemplo, está a disposição em cópia restaurada.

Ao lado de Júlio Bressane, sem dúvida o mais respeitado cineasta brasileiro em atividade, Sganzerla criou a mais fantástica experiência de produção de cinema de vanguarda, a Belair Filmes, produtora retratada no documentário citado acima.

Entre fevereiro e maio de 1970, Bressane e Sganzerla realizaram sete filmes de longa metragem. Eram crônicas e fábulas irreverentes sobre os costumes e a sociedade brasileira, isto em plena vigência do regime militar. Por isto esta trajetória da Belair Filmes é também uma página da história do cinema brasileiro que ainda merece olhares atentos.

A despeito deste período fértil de produção, a carreira de Sganzerla foi constituída de seus lampejos geniais e de frustrantes hiatos, especialmente porque sempre foi praticante de um cinema autoral, que o colocava quase sempre na posição de quem nada contra a maré.

Sganzerla nasceu em Joaçaba, interior de Santa Catarina, mas se radicou em São Paulo desde os anos 60, onde viveu a maior parte da sua vida e dos 40 anos dedicados ao cinema. Nos últimos tempos, já bastante debilitado, concluiu O Signo do Caos, obra produzida, roteirizada, dirigida e montada por ele. Como era de praxe, com pouquíssimos recursos, metade do que normalmente se gasta num filme brasileiro de baixo orçamento.

O Signo do Caos fez uma bela carreira nos festivais, uma trajetória que Sganzerla - já atingido por um câncer - não pôde acompanhar. Sua mulher, a atriz e cineasta Helena Ignez o representou por onde o filme passou. Sempre dividindo com as plateias o quanto a película trazia da arte e da angústia deste homem tantas vezes cerceado em sua arte.

Jornalista e crítico de cinema, Sganzerla passou pelas redações dos principais jornais paulistas, entre 1964 e 1968. Em 1966 dirigiu o seu primeiro trabalho, o curta-metragem Documentário. Dois anos depois, deixaria o trabalho com a imprensa para se dedicar exclusivamente ao cinema. É quando se torna um dos expoentes da geração da Boca do Lixo, reduto do cinema de vanguarda nacional, também chamado de “udigrudi” e “maldito”.

Com o seu primeiro longa-metragem, O Bandido da Luz Vermelha, promove a intersecção entre o Cinema Novo e a geração do Cinema Marginal. Cria um filme singular na narrativa, que desconstrói a idéia de tempo e espaço para lançar um olhar sobre um anti-herói brasileiro. Com ironia e senso crítico, emprega toda a sua verve na observação da crônica policial e alfineta a glamourização do crime na mídia.

Momentos cinematograficamente inusitados, como a cena em que um anão, detido desavisadamente, tenta resistir, aos gritos de que o “terceiro mundo vai explodir e quem tiver sapato não sobra!”. Já casado com Ignez – primeira esposa de Glauber Rocha (o casamento durou dois anos) – Sganzerla filmou com ela A Mulher de Todos (1969). Depois viria Sem Essa Aranha, Copacabana Mon Amour e Carnaval na Lama, todos de 1970, produzidos pela Belair.

Em 1971, Sganzerla roda Fora do Baralho, para depois viver o seu primeiro momento de hiato. Só voltaria a concluir um longa-metragem seis anos depois, Abismu, fita estrelada por Norma Bengell. Dividido entre pesquisas e o retorno ao jornalismo (vira articulista da Folha de S. Paulo, na década de 80), leva seis anos para concluir Nem Tudo é Verdade, título inspirado no filme brasileiro de Orson Welles It’s All True (jamais concluído), lançado em 1986.

Na seqüência, dirigiu o documentário Linguagem de Orson Welles (1987) e Noel (1990), registro sobre o compositor e intérprete Noel Rosa, personagem que já havia ocupado o diretor no início dos anos 80, quando filmou Noel por Noel. Signo do Caos retoma a verdadeira fixação do cinesta brasileiro por Welles, que foi, como ele próprio, um diretor incomodado com o seu tempo e, não raras vezes, incompreendito.

Maldito, marginal, genial, idealista, poeta, radical foram alguns dos adjetivos que acompanharam Rogério Sganzerla ao longo da vida. Basta ver alguns dos seus filmes para entender como a manifestação artística sempre foi para ele algo urgente, necessário, como respirar. De quantos cineastas e, artistas em geral, se pode dizer isto?


*João Carlos Sampaio é pesquisador, jornalista e crítico de cinema

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