O Contador de Histórias é um filme sobre Roberto Carlos Ramos, um garoto que foi internado na Febem, em Belo Horizonte, quando criança, e tido como caso perdido após dezenas de fugas do internato. Cheirou cola, tinner e roubou diversas vezes. Encontrou numa pesquisadora francesa a possibilidade de ter seu destino mudado. Acabou por transformar-se num dos maiores contadores de histórias do mundo.
A história é contada através da visão que ele tinha das coisas quando jovem (a narração é do verdadeiro Roberto Carlos) e por isso, permeada por todos os acontecimentos lúdicos que a imaginação de uma criança pode criar em substituição aos fatos reais.
Por isso, o chefe dos bandidos torna-se um rei cheio de moral, para o qual as pessoas dão seus pertences sem nem sequer serem abordadas; um assalto a banco mais parece uma estilosa aparição dos Jackson 5; uma mulher alta torna-se uma circense perna-de-pau, uma professora gorda transforma-se num enorme e artesanal hipopótamo e a leitura de “20 Mil Léguas Submarinas”, de Júlio Verne, emerge o garoto numa cena animada, cheia de bichinhos advindos do livro. As filmagens dão vida à imaginação hiperbólica da criança, colorindo mais as cenas em que ele conta seus “causos” e dando um tom mais sóbrio quando as situações representam o que realmente aconteceu.
Há duas histórias paralelas: a da vida que começou após conhecer a francesa e a da vida que o menino teve antes disso, desde a convivência com a família numerosa até o internato na Febem.
É óbvio que a vida do sujeito foi muito mais dura do que a contada no filme e isso não é um descrédito à produção. A escolha por contar tudo na visão do protagonista e não apenas reconstruir os fatos, como geralmente acontece em cinebiografias, dá um toque mais fantasioso e carrega a história de maneira leve, afinal, o que entra pela retina de uma criança é muito mais iluminado e circense, sem dimensão exata dos fatos. Então não adianta criticar o filme por suavizar as situações porque isso tudo é justificado.
Para mim, é uma grande mérito não fazer melodrama em cima das tragédias que ocorreram no decorrer da vida dele. A intenção não é fazer o público chorar, mas contar uma história que teve um final feliz, pela força de vontade de uma batalhador.
O Contador de Histórias é um pequeno Peixe Grande brasileiro. Não tem toda a pompa do filme de Tim Burton, mas é muito bonitinho e bem produzido.
A atriz portuguesa Maria de Medeiros está encantadora no papel da francesa Margherit e as atuações dos garotos que interpretaram o protagonista, em diversas idades, são bem satisfatórias, exceto a do último ator, que faz o menino já mais velho.
Aliás, tudo no final do filme é bem inferior ao restante do longa, o que o faz perder a força. Um filme que se desenvolve tão criativamente não poderia terminar de forma tão simplória.
Mas isso não ofusca os méritos da produção, que encanta, entretem e que, mesmo ludicamente, encontra espaço para pequenas críticas aos métodos de reabilitação aplicados aos menores nas casas como a Febem.
A trilha sonora sonora é assinada pelo competente André Abujamra e entre os produtores está Denise Fraga, atriz e mulher do diretor Luiz Villaça, que aparece em duas pontinhas, bem escondida (um doce para quem descobrí-la na primeira aparição!).
*Fred Burle, de 27 anos, é mineiro, morou nove anos em Brasília. Recentemente mudou-se para Berlim, onde trabalha como produtor audiovisual. Mantém o blog
http://www.fredburlenocinema.com.