Rapaz se apaixona por uma boneca sexual. Você acreditaria se alguém dissesse-te que esta é a sinopse de um filme sensível, que fala de amor e do drama de uma pessoa para ressocializar-se, de forma original? Pois acredite, o comentário e a sinopse se referem ao mesmo filme: Lars and the Real Girl.
Fizeram tudo errado com essa pequena pérola independente: além de lançá-lo com atraso e limitações, ainda traduzem de forma tosca o título. Fica parecendo um besteirol de mal gosto, desses que lançam aos montes por aí. Daí atrai gente que não vai assistir o que pensava, podem se frustrar, por ser um público diferente do que o que o filme deveria ter, o boca-a-boca não vai funcionar e o filme não passará de “mais um” na multidão. Tem coisa que não dá para entender.
Ok, deixemos os mal-entendidos de lado e vamos ao que interessa.
Lars é um sujeito inerte. Após a morte dos pais, deixou a casa onde vivia para o irmão casado e foi morar na garagem em frente. Passava os dias sem novidades: do trabalho para casa, de casa para a missa e por aí vai. Ele não permite maiores aproximações de ninguém, nem mesmo da cunhada atenciosa e do irmão. Apesar disso, Lars é querido na cidadezinha em que mora. Há uma certa cobrança dos moradores para que ele arrume uma namorada. Até que ele conhece Bianca pela internet. Bianca é uma boneca, mas na cabeça dele ela é uma missionária, meio brasileira meio dinamarquesa (!) e que depende de uma cadeira de rodas para se locomover (conveniente). O irmão, a cunhada e todos da comunidade terão que “aceitar” a namorada de Lars, pelo bem dele, recomendação da psicóloga consultada. É a tal da história dos loucos: não os contrarie, concorde que eles têm razão. A boneca torna-se o apoio emocional de Lars e essa relação o fará feliz novamente, devolvendo-lhe a sociabilidade, levando-o aos poucos a se readaptar à sociedade. Parfo por aqui pra não estragar a história.
Ryan Gosling faz seu melhor trabalho como Lars, imprimindo-lhe toda a simpatia e inocência necessárias para tornar críveis as situações. Mas tudo funciona ainda melhor pelo conjunto. Emily Mortimer está ótima como a cunhada, Karin, Paul Schneider é o irmão e faz o contraponto ideal ao protagonista e outro destaque é da personagem de Kelly Garner, Margo, a colega de trabalho apaixonada por Lars, tão inocente e sem noção quanto ele.
Em certo momento, uma das beatas da cidade dá a Bianca um buquê de flores de plástico. Lars diz à boneca: “são legais, não?! Mas são de plástico. O bom é que vivem para sempre!”
Numa roda de auto-ajuda, uma senhora tenta convencer os outros a aceitar Lars: “tem gente que veste seus gatos, outros doam dinheiro para clubes de OVNIs, outro é cleptomaníaco, mas todos têm algum caso de maluco na família”.
É claro que não dava para ser um filme totalmente sério tendo uma boneca num dos papéis principais. Há cenas hilárias durante todo o filme, mas nada de riso fácil por aqui.
E o maior mérito do projeto é da roteirista Nancy Oliver (da série A Sete Palmos), que desenvolveu uma idéia original evitando os caminhos fáceis do pastelão e do grotesco. Seu roteiro resolve todos os problemas que a história poderia gerar. Tudo bem pensado, desde a caracterização dos personagens, a escolha da cidade, os colegas e o ambiente de trabalho, as circunstâncias, cada coisa contribuindo para a credibilidade final. Rendeu-lhe uma indicação ao Oscar de roteiro original em 2008, mas infelizmente não levou o prêmio.
Uma curiosidade: durante as filmagens, a boneca foi tratada como uma atriz de verdade. Ficava num trailer só dela e saía de lá apenas para as cenas nas quais apareceria! Tudo em prol da melhor incorporação de Ryan Gosling! Nos créditos também aparece o nome da boneca: Bianca Wrangler!
*Fred Burle, de 27 anos, é mineiro, morou nove anos em Brasília. Recentemente mudou-se para Berlim, onde trabalha como produtor audiovisual. Mantém o blog
http://www.fredburlenocinema.com.