Pedra preciosa atirada contra a intolerância

12 de dezembro de 2009, às 22h22min
por João Carlos Sampaio
 
A eterna questão pendente entre palestinos e judeus ganha contornos quase metafísicos, impulsionados por uma ânsia de superar rixas e bloqueios, a fim de acomodar a vida num leito de paz, mas também com algum suspiro por justiça. É mais ou menos isto que diz o incomum Intervenção Divina (Yadon Ilaheyya, 2002), o primeiro filme palestino a ganhar distribuição internacional.

A fita traz o olhar despojado de Elia Suleiman, um diretor palestino, nascido em Nazareth (cidade do profeta Jesus Cristo), que ultimamente tem sido sempre lembrado entre os principais realizadores contemporâneos. Seu filme mais recente, O Tempo que Resta (The Time that Remains, 2009), foi um dos destaques do Festival de Cannes, na França, e vai ganhar distribuição no Brasil.

Antes que este novo trabalho de Suleiman chegue aos cinemas, quem puder deve tentar alugar em DVD o citado Intervenção Divina, por ser um filme que sintetiza a busca pela justiça evocada nos filmes do diretor e mantém um estreito laço com as questões pessoais e cotidianas do cineasta. A ação traz os efeitos da vida apartada pelos pontos de checagem, que separam as fronteiras geográficas e estabelecem limites para a vida plena.

A força do discurso de Intervenção Divina não está na elaboração de um manifesto panfletário. Não se trata de um filme sobre a Intifada (movimento palestino contra a ocupação israelense), mas de um mergulho cheio de lirismo nas vivências de Suleiman, que além de dirigir, protagoniza a fita, quase que interpretando a si mesmo.

A linha narrativa principal mostra um homem dividido entre a preocupação com o pai gravemente adoentado e a paixão por uma mulher. Um amor que sofre pela obrigatória separação nos check points (os tais pontos de checagem). Nas barreiras israelenses, habitantes de povoados diferentes são impedidos de passar sem justificativa relevante, como se estivessem cruzando fronteiras de nações diferentes e não o seu próprio território.

A separação ecoa forte no filme, tanto que o casal apaixonado mal consegue se entregar ao amor, ao invés disso, contemplam o vazio. Lançam olhares para o tempo e para os céus, como se esperassem uma providência de Deus (daí todo o sentido do título do filme) para a solução de uma dor, que reside na falta de compreensão entre os homens.

Além do personagem e do foco intimista, o filme se ocupa de diversas histórias. Tramas sem aparente ligação, mas que funcionam como ambientação para que se conheça mais da Palestina e da vida privada de seus habitantes, tão invisíveis para o mundo porque se tornaram personagens mitificadas, como tal, figuras reduzidas a um entendimento-visão, que esconde almas e sentimentos.

Elia Suleiman entende isso e cria um filme para dar visibilidade à vida simples, à rotina de um povoado. Mas o dia-a-dia aparece na tela com graça. São instantâneos com um certo humor e especialmente com uma poesia, que jorra da identidade comum a palestinos, israelenses, americanos, gregos, chineses e brasileiros, trata-se do quê de humanidade que todos carregamos.

O diretor nos exibe pequenas aventuras de um mundo que parece estar suspenso no ar. As tramas mostram repetidas ações de personagens aparentemente deslocados da existência real. Não há uma noção de tempo e, embora saibamos exatamente que o filme se passa na Palestina, a impressão que a trama nos dá é a de que se trata de um não-lugar.

A simplicidade do conteúdo mesclada à sofisticação da sua construção é que desconcertam. O filme do qual se esperava um tom realista, quase documental, mostra-se, na verdade, um rico devaneio autoral, com todos os ingredientes da ilusão e do artifício, que são matérias-primas do cinema.

Intervenção Divina é um filme que nasce clássico, porque muitas de suas seqüências estão fadadas à imortalidade. Impossível esquecer a cena do balão vermelho com o rosto do líder palestino Yasser Arafat cruzando a barreira militar impunemente e flutuando no céu, bailando no entorno de um antigo templo árabe.

Noutra situação tão imagética e fantástica quanto a anterior, uma espécie de ninja palestina liquida soldados inimigos. Difícil não entender isto como uma mensagem ao ocidente e especialmente Hollywood, com seus filmes cheios de heróis com superpoderes e um insuportável silêncio diante da subjugação e sofrimento de tantos inocentes.

Esta obra é quase uma pedrada necessária para despertar quem consegue dormir, neste caso, uma pedra preciosa atirada contra a intolerância e em favor do bom senso e da solidariedade, dons que tantas vezes deixamos de exercitar.

*João Carlos Sampaio é pesquisador, jornalista e crítico de cinema.
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