Quando a folia de momo invade as telas de cinema
17 de fevereiro de 2010, às 13h54min
por João Carlos Sampaio

O Carnaval sempre esteve presente no cinema brasileiro, antes mesmo dele começar a falar. Os pesquisadores têm como consenso que o filme pioneiro no assunto foi um documentário rodado em 1909, chamado Pela Vitória dos Clubes Carnavalescos, de Antonio Serra. Há quem cite também imagens feitas um ano antes por Adhemar Gonzaga e Vicente de Paula, que teriam gravado cenas do corso em Botafogo.
Dezenas de filmes domésticos e cinejornais são rodados nos anos seguintes, nos quatro cantos do país, reunindo imagens pitorescas da folia no início do século. Nas salas de cinema, entretanto, o segundo grande marco é Pierrô & Colombina, filme de Eduardo Neves, rodado em 1916 e exibido com grande sucesso comercial. Tamanho êxito gerou um filme homônimo, lançado três anos depois, com assinatura de Louis Delao.
Saindo deste universo do cinema silencioso, o primeiro grande filme é mesmo A Voz do Carnaval (1933), que é dirigido a quatro mãos por Humberto Mauro, o grande nome do cinema brasileiro na primeira metade do século XX, em parceria com o citado Adhemar Gonzaga, o lendário criador dos estúdios da Cinédia.
A fita é precursora da chanchada e trazia no elenco ninguém menos que Carmem Miranda, o carnaval em pessoa, ao lado de Oscarito e numeroso elenco, com direito até a uma participação especial do compositor Lamartine Babo, autor de famosas marchinhas carnavalescas. A Voz do Carnaval marca a estréia de Carmem Miranda no cinema, sete anos antes de conquistar Hollywood com Serenata Tropical (1940).
Em 1936, outro misto de documentário e musical fez grande sucesso na tela, foi o filme Alô, Alô Carnaval, dirigido pelo cineasta norte-americano Wallace Dowey, que viveu anos no Brasil, e dirigiu o filme em parceria com Gonzaga. A fita, recentemente restaurada pela filha do cineasta e produtor brasileiro, Alice Gonzaga Assaf, traz Carmem Miranda e um time de grandes intérpretes brasileiros em ação.
Francisco Alves, Mário Reis, Lamartine Babo, Almirante, Luís Barbosa e a irmã de Carmem, Aurora Miranda, estão devidamente eternizados na tela com estas preciosas imagens de Alô, Alô Carnaval. Depois desse filme, o Carnaval no cinema, nesta década de 1930, é lembrado também por Joujoux e Balangandãs (1939), registro de um espetáculo inspirado pela marchinha de Lamartine Babo.
Se a companhia Cinédia foi responsável pelos primeiros flertes entre o cinema e o Carnaval, é com a fundação de outras empresas cinematográficas como a Vera Cruz e, principalmente, a Atlântida que a parceria engrena de vez. As chanchadas, musicais com humor e traços bem brasileiros, tomam a tela e promovem o momento de maior popularidade do cinema nacional.
Na virada para os anos 1950, os títulos se multiplicam, com os sucessos de fitas como Carnaval de Fogo (1949), de Watson Macedo, e Carnaval Atlântida, de José Carlos Burle, que reúne impagáveis momentos da dupla Oscarito e Grande Otelo. Atores como José Lewgoy, Cyl Farney, Nora Ney, Renata Fronzi, Zezé e Eliana Macedo surgem nestes filmes, que já começam a trazer fiapos de história emoldurando os números musicais.
Carnaval em Marte (1955) vai trazer Anselmo Duate e Ilka Soares numa trama romântica que dá direito a muita música, com a presença de grandes estrelas do rádio, como Angela Maria, Linda Batista, Emilinha Borba e Cauby Peixoto. Mesmo nos anos 1960, fitas como Bom Mesmo é Carnaval (1962), de J.B. Tanko, que dirigiria também Carnaval Barra Limpa (1967), rivalizaram com o Cinema Novo e sua proposta mais cerebral.
Por falar em Cinema Novo nunca é demais lembrar que, apesar da sua inclinação ao engajamento social e condenação ao escapismo, ele teve como seu filme inaugural a obra Rio 40 Graus, de Nelson Pereira dos Santos, que trazia Zé Kéti e sua carnavalesca A Voz do Morro.
O samba e o carnaval do Brasil também contaminaram produções internacionais como Orfeu do Carnaval (1959), do francês Marcel Camus, que ganhou a Palma de Ouro no Festival de Cannes. Inesquecível também a cena em que Roger Moore, na pele do herói James Bond, é atacado por bandidos travestidos de foliões num beco do Rio de Janeiro, no filme 007 - 0 Espião Que Me Amava (1977).
Na década de 1970, Há alguns exemplares importantes de filmes brasileiros como Quando O Carnaval Chegar (1974), musical que reúne Chico Buarque, Nara Leão e Maria Bethânia, e o irreverente A Lira do Delírio (1978), estrelado por Anecy Rocha, Cláudio Marzo e Paulo César Peréio. O Rei do Rio (1985), de Fábio Barreto, está entre os títulos carnavalescos do cinema brasileiro nos anos 1980, que também tem Águia na Cabeça (1984), de Paulo Thiago.
Mais recentemente, a folia baiana deu a sua contribuição à temática com o sucesso Ó Paí, Ó (2007), fita de Monique Gardenberg. Antes, em 2001, 3 Histórias da Bahia, de Sérgio Machado, José Araripe Jr. e Edyala Yglesias, trazia episódios ambientados na festa. Mergulhando no assunto é possível levantar mais dezenas de filmes com o tema, o que só atesta o quanto a folia momesca sempre foi levada a sério pelo cinema brasileiro.
*João Carlos Sampaio é pesquisador, jornalista e crítico de cinema.
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