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Um filme quente de almas geladas ou um filme americano com temperamento russo

 


“Cold souls” recebeu por aqui o título “Almas à venda” enquanto em outras esferas da língua portuguesa acabou ficando conhecido por “Tráfico de almas”. O importante é que o filme parece ter sido feito sob medida para um publico bem específico (leia-se fãs do Charlie Kaufman), o que fez com que a obra também ganhasse o apelido de “Brilho eterno de quero ser Paul Gimatti”.

E realmente é impossível negar as influências Kaufmanianas da novata Sophia Barthes que escreve e dirige o longa. Paul Giamatti interpreta ele mesmo, ou seja, um sujeito taciturno e melancólico que no momento está tendo dificuldades em sua vida ao interpretar o Tio Vânia do Tchekov em uma montagem da Brodway, pois não consegue se dissociar do peso literário do personagem. Ele acaba sendo aconselhado pelo seu agente para um serviço de “remoção de almas” e é ai que a coisa começa a parecer que já foi vista antes.

A questão é que se em “Quero ser John Malkovich” o ponto principal da trama era a mente, e em “Brilho eterno de uma mente sem lembranças” passou a ser a memória, agora é a hora e a vez da alma. O que não se pode negar também é que Barthes conseguiu imprimir uma identidade peculiar ao seu filme recheado de homenagens, ao passo em que abre espaços bastante sensíveis para a alegoria e discussão filológica da alma.

Quando tem sua alma removida, Gimatti se sente extremante vazio e angustiado, sua atuação se transforma e ele perde todo o rendimento, sem o peso característico necessário ele “aluga” o que imagina ser a alma de um poeta russo e depois de tanto, quando desiste e quer sua alma de volta, acaba descobrindo que ela foi roubada por traficantes russos.

Além da trama caracteristicamente esquizofrênica e as muito boas atuações de Giamatti e David Straitharn (Dr. Flintstein), o filme se dá ao luxo de tiradas realmente cômicas e inesquecíveis como “O que a minha alma está fazendo em São Petersburgo?” ou “Dane-se Heráclito!”, dignos de um bom script woodyaleano. Aliás, a ideia do filme surgiu de uma declaração do próprio Woody Allen ao dizer que sua alma provavelmente teria a aparência de um grão de bico. Para fechar o conjunto da obra: a poesia imagética de paisagens belíssimas e gélidas, fotografadas com uma leveza romântica de encher os olhos.

Ao terminar de ver o filme, dá pra se perceber que flutua na tela uma criatividade bastante inteligente, o que torna a obra totalmente aconselhável, e o melhor, não só para os fãs de Charlie Kaufman, mas pra qualquer entusiasta de filme interessante. “Cold Souls” é dramaticamente cômico e comicamente dramático, um filme norte americano com alma de literatura russa.

*Emanuel Diniz é graduando em Rádio e TV e não tem blog. Seu e-mail é dinix11@yahoo.com.br

Fotos:

Steve Mohundro

http://www.flickr.com/people/scypaxpictures/

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“Cold Souls” é dramaticamente cômico e comicamente dramático, um filme norte americano com alma de literatura russa.

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