Com a proximidade do mais novo oficial fim do mundo (!), em 2012, nada mais natural do que fazer dinheiro em cima da crença das pessoas. Mas, em meio a tanto oportunismo, eis que vez por outra surge algo de qualidade.
A Estrada é mais um desses filmes pós-apocalípticos ao estilo de bons filmes (Filhos da Esperança), filmes medianos (Eu Sou a Lenda) e filmes ruins (O Livro de Eli). Em qualidade, digamos que fica num patamar entre o primeiro e o segundo citados.
A Terra foi totalmente devastada por acontecimentos cataclísmicos, que erradicou vidas e os recursos naturais, fazendo com que os sobreviventes morressem de fome e desespero. Um pai (Viggo Mortensen) resolve partir, com seu filho, numa longa caminhada em direção ao mar, sempre procurando meios de subsistência pelo caminho.
Segue então toda a lenta jornada de (auto)descobertas, de desespero e de valor às menores coisas. Mas o foco principal está na relação entre pai e filho, em toda a dificuldade em dar à cria um exemplo de conduta, por pior que a situação esteja. É o esforço de uma geração mais velha para conscientizar a mais nova de que as atitudes que o Homem tomou até então não foram totalmente adequadas.
Viggo Mortensen entrega-se ao seu personagem com uma dedicação impressionante, mas sem precisar de cenas de impacto para mostrar seu talento. Suas reflexões são tristes, mas belas e pertinentes.
Diferentemente dele, o garotinho Kodi Smit-McPhee até que se esforça, mas encarna um tipo que não condiz com a situação: seu personagem é bobinho demais para alguém que cresceu em meio ao caos. Está certo que a mensagem de inocência era a intenção, mas um garoto como aquele tinha que ter um mínimo de coragem ou maldade para a vivência naquele mundo.
Para não fugir à regra desses filmes, lá estão os irritantes e explícitos merchandisings de grandes marcas, como se elas fossem como baratas, para sobreviverem a todo e qualquer caos. Mas isso a gente releva, afinal, patrocínios são necessários para complementar o orçamento de um filme. O dia que a Coca-Cola ou a Elma Chips quiser patrocinar um longa meu, é óbvio que eu vou adorar.
Talvez a frase que mais resuma A Estrada seja esta: “quando não me sobra mais nada, tento sonhar o sonho das crianças”. É para esta limitação que a humanidade parece caminhar e, cada dia que passa, o cenário caótico destes filmes parece menos improvável. E isto eu digo baseado em fatos e não em crenças e religiões. O pai ainda consegue sonhar assim, mas o filho nem consegue, pois já não sabe mais como poderia ser o almejado “mundo melhor”.
É com ritmo lento, de corpos e almas que se corroem aos poucos, que o diretor John Hillcoat, baseado em livro de Cormac McCarthy (Onde os Fracos Não Têm Vez), realiza um filme pós-apocalíptico do jeito que tem que ser, sem estardalhaços, com profundidade impressa em sutilezas e simbolismos. Um mapa, por exemplo, pode significar muito mais do que somente um mapa. Só acho uma grande lástima que uma história que se desenvolva tão bem acabe de maneira tão clichê e mal elaborada.
*Fred Burle, de 27 anos, é mineiro, morou nove anos em Brasília. Recentemente mudou-se para Berlim, onde trabalha como produtor audiovisual. Mantém o blog http://www.fredburlenocinema.com.
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Em uma Terra devastada, um pai resolve partir, com seu filho, numa longa caminhada em direção ao mar, sempre procurando meios de subsistência pelo caminho.