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Um lindo beija-flor – coisas que estão cada vez mais raras

 


O solitário beija-flor, enamorado de minhas flores atraentes, sempre aparecia no jardim de minha casa todos os dias, ao entardecer, já quando o ocaso começava a pintar o céu com diversas cores. Na maioria das vezes chegava apressado, olhava para todos os lados talvez temendo algum concorrente ou uma ameaça qualquer, mas invariavelmente logo depois de sondar o ambiente voava todo solícito ao encontro amoroso.

Subia para tocar e beijar as flores do alto e ali ficava em êxtase por instantes, a seguir voava ansioso, rápido, entregando-se aos ósculos nas que se escondiam nas proximidades da parte baixa das plantas. Todo esse gozo espetacular não durava mais que alguns minutos, o azul-esverdeado de seu frágil corpinho pincelando o espaço aéreo para deleite de meus olhos fascinados.

As visitas diárias daquele beija-flor se tornaram um hábito para o encantamento do meu coração. À uma segura distância dele, de modo a não perturbar-lhe o tênue momento de amor com suas amadas nascidas no meu jardim, eu cuidava com todo zelo para que nada nem ninguém pudesse atrapalhar o seu prazer.

Numa tarde qualquer que o tempo esqueceu, a pequenina ave azul-esverdeada não apareceu para seus encontros de amor com minhas flores. A princípio tive esperança de que ele pudesse estar atrasado por algum motivo desconhecido de mim, mas logo as horas foram passando, o sol se vestindo para dormir, o espaço celestial começou a escurecer paulatinamente e nenhuma notícia dele, nem a mais remota.

Em vão o esperei olhando desesperado para cima, no rumo das esquinas, da vizinhança, dos fios elétricos esticados nos postes, e buscando seu vulto que a tristeza insistia em não trazer. Por favor, não contem para ninguém, mas eu, contrariado por ter perdido a dose diária de poesia viva proporcionada por aquele beija-flor enamorado, depois de esperar até o anoitecer, quando já não haveria mais nenhuma possibilidade de ele chegar, sentei-me num banquinho colocado entre as plantas e chorei.

Depois disso nunca mais avistei o poético beija-flor. Em algum lugar, num momento qualquer daquele dia, algo de muito grave aconteceu e levou do meu jardim, para sempre, o mágico instante de fascinação que o belo poema cheio de vida que era o beija-flor me concedia.

Fotos: Dario Sanches

*Gilbamar Bezerra é advogado, escritor, poeta e mantém o blog Poesias e Crônicas, onde pode-se encontrar um pouco de seus escritos.

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