Sim, você está certo. Admiro muito sua pessoa e seu modo de ver a vida.
Confiança, honestidade, transparência, sinceridade. Bem, há tantos valores, princípios, mas são para poucos. É mais conveniente estar entre Drummond e Pessoa, encarnado em dilemas de poeta, do que se fingir de gente boa mantendo as aparências. Na cova dos leões, são todos gatos pequenos, filhotinhos, mas a sombra do fogo refletida sobre eles até faz eles parecerem grandes.
Há aqueles que se guiam pela sombra, achando que são eles mesmos. Mas se um dia encontrarem um espelho exato, nítido, vem o baque traumatizante: o reflexo não corresponde ao idealizado.
Bem, então isso tudo, em última instância, são quadros, poemas, filmes e canções em potencial. E se não fosse a arte, para utilizar até o dito inútil, o que seria da vida do homem?
Depois de mais um dia de trabalho, senta na cadeira, abre o livro, liga o som ou o filme, para ter nem que seja o mínimo de contato com algo esteticamente válido. Na ausência de harmonia na própria vida, os artistas servem então como um consolo (o cultivador do ópio) pra embriagar a humanidade.
Mas não de confusão, e sim de uma fusão que une tudo no mesmo caldo, e serve quente (ou frio, depender do gosto) pro esfomeado cliente. Não tem nada de especial, é só comida cozinhada, temperada e bem apresentada. Mas acaba ganhando um valor.
Acontece até de algumas serem sinônimo de fortuna. É a arte de fazer milhões a partir do vazio.
Sombrio pensar que muitos desses milhões só chegam depois que o artista já foi. Mas está pago, Deus lhe pague, já foi pago, desde o momento em que a arte foi feita. Nada vale tanto quanto a oportunidade de gerar a arte. O nobre ato da concepção.