Duas cordas, um nó e cinco parágrafos - A partida da cegueira

04 de janeiro de 2010, às 09h15min
por Tiago Mesquita
 
Houve um certo tempo situado num passado não tão remoto assim em que um importante acordo foi firmado entre duas cordas. A intenção do tratado era manter ambas amarradíssimas na curiosa idéia de nunca permitir a distância se aproximar. O acordo foi batizado de Nó Cego, pois suas criadoras faziam questão de ver o nome como melhor definição da parceria pela busca de tornar real a impossibilidade das partes se desatarem. Então as esperançosas cordas começaram a viver nesse Nó Cego com tamanho entusiasmo e vontade e ousadia e força e desejo suficiente para não chegar nem perto de se deixar levar pelo perceber de que o entrelaçamento era nada mais nada menos que o próprio resultado do simples ato de se atrair e atar.

Juntas elas sentiam o mesmo calor, compartilhavam a mesma casa, a mesma tensão, a mesma ilusão, o mesmo sentimento, corpo, momento, fome. Em forma de uma única corda elas experimentavam o que pensavam ser a superioridade e verdade plena da totalidade única, a maravilhosa sensação de unicidade que até então desconheciam. Acreditavam piamente que através do Nó Cego estavam repletas, completas, prontas e dispostas a se apertarem eternamente uma contra a outra com uma intensidade progressiva a destino de uma união sempre crescente. As cordas coexistiam satisfeitas e completamente certas de que o sentido de suas vidas era ser uma só vida sem fim, separação e diferença, com o propósito maior de se enrolar e desenvolver unicamente em torno de si mesmas.

Porém o desenrolar dos fatos, dos dados, dos dias e mudanças, fez a história tomar novo rumo. Depois de tão querido, almejado e valorizado, o Nó Cego de repente começava a enfraquecer, cansar, ganhar desânimo, perder rigidez, desandar, se tornando não mais um nó firme e resistente, mas sim um incômodo nó na garganta das duas cordas. De sonho, paraíso e paixão, o elo que tanto uniu as duas se transformava gradualmente numa fonte geradora de consecutivos imbróglios e quiproquós. Nesse ponto as cordas já haviam aceitado definitivamente a partida da cegueira. A inocência pegava carona e também se despedia. O nó que as prendia finalmente insinuava energicamente o que elas tentaram insistentemente evitar admitir: desatar era um futuro possível e iminente.

No lugar da cegueira que ocultava os problemas, minimizava as incongruências e fazia pouco da incompatibilidade, tomava espaço uma lucidez tremenda, luz insaciável, obstinada e decidida, que iluminava as cordas, elucidava as dobras e penetrava fundo na ilusão que ainda mantinha aquele dois em um. A retração foi instantânea. Como que institivamente, como se não pudesse ser diferente, as cordas cederam e se afrouxaram imediata e rapidamente. Soltas voltaram a ser dois. Duas cordas novamente livres. Tomaram a direção oposta, cada uma para um lado, em sentido e velocidade contrários ao movimento que as amarrou e prendeu. O que foi nó se fez pó dentro do vento e assim um ponto final.

Até hoje não se sabe exatamente como aquele vinho virou água, como surgiu luz daquela escuridão, como da noite para o dia o Nó Cego passou a enxergar. Sobraram comentários e boatos. Um deles conta que as duas cordas, já refeitas, recuperadas, renascidas e renovadas, continuam sós por aí, jurando que os nós existem somente para criar proximidade onde a distância nunca vai deixar de existir.

Foto: Cainha

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