Mudo. Parecia um pedaço de madeira abandonado, mas era de verdade. Tinha um pouco de água e se dizia gente. Mas não dizia nada. Era feito um pássaro quando dorme e a noite silenciada de automóvel esquece que existe dia. Era feito um ninho, abandonado. Daqueles que a gente só observa a linha amontoada pra virar remendo depois e junto de outras linhas, se costuram, afinam, mas não se tocam, são solidões amontoadas.
Era assim. Como quem espera um transporte num lugar remoto, passa a ser tão inóspito quanto. E quando passa algo, mesmo que uma fagulha de vaga lume, não pega fogo, só desperta. São incêndios impossíveis, como os isqueiros sem gás. Ele era.
Uma fagulha esquecida no canto do poste quando o fumante teve que desperdiçar para pegar o primeiro trem...era outra coisa. Era a centelha também, quase apagada depois de três dias de acesa, com os milhos já comidos e um bando de cinzas pra escurecer o chão. Era não. Era mais que isso. Parecia um pecado, daqueles mais escondidos que a gente faz questão de deixar longe, mesmo que sozinhos se acendam e virem outros, muito maiores.
Mas talvez, tudo isso faça sentido para quem não sabe o que é ficar esperando um sentido. Ou não, ou faça só naquele instante. O calor do que é passageiro, no instante em que é quente, incendeia. Depois esfria. E vira esquecimento. Mais um de tantos outros, como os documentos presos em gavetas velhas, quase amarelados feito memórias de velho.
Quando a cor vermelha já vira ferrugem e dali não se monta mais bicicletas para correr nos campos longe, viram outras coisas, podem até ficar escondidas, mas tem movimento ainda, só de olhar o pedal, o movimento aparece e faz girar os olhos, os dedos e o passado mais longe, feito moinhos. Sem vento, sim.. o vento é a parte de uma história que ainda não entrou aqui.
Foto:
RoibradBury