O paradoxo da bombástica frase, o momento inadequado de sua inesperada pronúncia por aquela mulher de indumentária aberrante e colorida, provavelmente uma cigana, a complexidade da informação, a estranheza dessa abordagem súbita a um menino de nove anos ocupado em viver sua infância, tudo combinava para deixar o absurdo como algo vindo de quem certamente perdera a razão em algum tempo de sua existência.
Decerto seria isso, pois ela não o conhecia, jamais o tinha visto antes, por sinal, portanto brincadeira de mau gosto não poderia ser, mas o alarmante é que a tal mulher aproximou-se dele decidida, séria, vindo sabe-se lá de onde e com que intenção, e quase o hipnotizando com o olhar tocou-lhe o ombro e o surpreendeu falando a enigmática afirmação em tom de profecia. Ou a completa idiotice, talvez seja melhor acrescentar. Depois, sem mais nada adicionar ao presságio, à guisa de ter cumprido uma preciosa e importante determinação, afastou-se e desapareceu na esquina mais próxima da rua de barro onde ele jogava bola com os garotos da vizinhança.
O menino, inocente, sem conseguir compreender por que a cigana lhe dissera tamanho absurdo, atônito, viu-a sumir, pensou rapidamente sobre o fato e, como não cabia em seu entendimento a razão daquela incoerência, deu de ombros por fim e riu para si mesmo com sarcasmo, julgando-a completamente maluca. E voltou a brincar indiferente, deixando para lá a óbvia insanidade. Então, como sói acontecer às crianças, escamoteou para um lugar escuro da memória a ridícula barbaridade e logo a esqueceu, era incapaz de ficar matutando sobre algo que fugia à mais simples idéia de bom senso.
O tempo transcorreu, a vida continuou, as águas passaram pela pedra do moinho e por sob as pontes, os anos se foram impassíveis e as brumas do cotidiano se encarregaram de refugiar no mais recôndito de seu âmago temas, fatos e ocorrências da infância, da adolescência, da juventude, como as esquecendo, como as transformando em poeira, como as deixando somente semilatentes, fragmentadas, assim amortecidas, talvez vivas, porém frias e murchas, parecendo mortas nos obscuros arquivos da memória.
Desdobrou-se nos estudos, esmerou-se nos sonhos mais vívidos, viveu os seguintes quase a correr, os devaneios bem à frente do presente, o amanhã chegando primeiro em seus desejos do que a mesquinha rotina, os passos indecisos tomando ares quilométricos, um dia seguindo o outro, as semanas, os meses, os anos tudo passando à semelhança de um filme de longa metragem em alta velocidade, o dia querendo a noite, esta ansiando o novo alvorecer, depois o entardecer, enfim mais uma noite próxima de outro amanhecer. Até que os anelos lhe foram sossegando na alma porque transformados alguns em realidade, outros tantos em fracasso, a maioria sendo tão-somente ilusão esmaecida no relampejar do tempo, uns e outros fazendo seu coração tranqüilizar-se com a pequenez dos tentos alcançados e dos objetivos vencidos que o destino lhe oferecia com a mesquinhez que lhe é notadamente peculiar.
Metamorfoseou-se em adulto, enveredou pela trilha do mercado de trabalho, casou e formou uma família, tinha uma casa para morar com a esposa e os filhos, um carro para passear nos fins de semana, uma religião para adorar a Deus, atingira, enfim, a realização almejada por todos os seres humanos. Achava-se realizado como homem e como cidadão, havia cumprido sua missão de ser humano sem quebrar regras nem ultrapassar seus limites. Nada mais restava. A não ser a velhice abandonada e o inevitável destino de qualquer ser vivo: a morte.
Nem tudo, no entanto, seria assim, embora ele jamais ousasse sequer imaginar ou devanear tamanhas possibilidades. E foi assim que, certo dia, como também acontecera tantos anos antes, ainda na sua meninice, passe de mágica do repentino, veio-lhe à presença, mais uma vez, sem convite, inesperada e atrevida, outra desconhecida cigana e jogou-lhe na alma essa sentença:
- Tudo mudará, o que é já não mais será e o que foi deixará de ser.
Falou sem que ele questionasse, disse sem o seu esperar, não pediu nada pela certeza ou incerteza de suas palavras nem perguntou qualquer coisa, nem mesmo o olhou mais que uma só vez, para logo, já emudecida, se ir. Veio do nada e do nada se foi, misteriosa e desprovida de bom senso, difusa como os enigmas, desconexa, irreal. Como perturbações fluindo do sopro da brisa e dobrando imediatamente as esquinas, antes que espalhem pistas para serem compreendidas.
Ele, porém, já estava além do próprio limite de tanto não querer escutar bobagens de ciganas, não, desta feita não daria qualquer importância para elas, não representavam nada, desejava mesmo é que fossem todas partidas ao meio por raios de brusca tempestade e desaparecessem de sua vida pacata, chocha, apagada, insossa, mas serena, longe dos problemas, ainda que um tanto esmaecida. Não compreendia por que tanto assédio, o ser ele alvo dessas investidas imbecis, desses rompantes malucos de mulheres vagabundas.
Por que elas o perseguiam a esse ponto, por qual motivo apareciam de tempos em tempos para dar esses nós cegos em sua mente, para toldar-lhe as idéias? Lembrou-se vagamente de outrora, de certa futilidade dita por um delas em sua distante infância, uma falácia, algo não tão claro em suas recordações, mas é certo que foram patuscadas, idiotices, como sempre, óbvio, e varreu mais essa da lembrança. Não valia a pena pensar nisso, as ciganas são todas mentirosas, sonsas metidas a saber das coisas proibidas pela lei da plausibilidade. Não é ao arrepio das normas que protegem os acontecimentos futuros que elas adentram a garantir conhecer os amanhãs? Não contrariam as palavras da Bíblia julgando ter a chave do porvir?
A seara por onde costumam querer trilhar não é estrada para seus pés nem visão para seus olhos. Apesar disso, ousam e enganam tantos incautos. Assim, ele achou por bem afastar-se de sua presença influenciável, deixá-la falando sozinha. O que ele não sabia, todavia, é que, havendo cumprido sua inexplicável missão, a mulher não pretendia falar mais nada.
Resumia-se sua borrada vida, assim, a deitar o olhar no horizonte e permitir o agir da idade sobre si, inteiramente entregue aos ditames ditatoriais do relógio temporal, aos dias que o esperavam como idoso. A impiedade do tempo já começara a marcar-lhe o rosto por inteiro, as forças feneciam a pouco e pouco, a inevitabilidade da noite depois do crepúsculo, da velhice que se aproximava depois da juventude vivida, tudo seguindo a costumeira rotina, a pasmaceira usual na qual com certeza já haviam entrado seus contemporâneos.
Restava-lhe, consoante ele decerto já esperava, envelhecer ao lado dos seus, aposentar-se, viver o resto de seus anos placidamente e aguardar o fatídico momento de passar para o outro lado.
Fotos:
Millzero Photography
*Gilbamar Bezerra é advogado, escritor, poeta e mantém o blog
Poesias e Crônicas, onde pode-se encontrar um pouco de seus escritos.