Eu os vejo inesperadamente em todas as ruas por onde transito descontraído, sendo-me impossível não me quedar perplexo e feliz a um só tempo por vê-los, pois os admiro pela coragem e vigor de ultrapassar barreiras e por vê-los como se fossem símbolos da vida. Ali sozinhos à mercê do repentino, como que conduzidos por bengalas, claudicando mas ainda assim, destemidos, enfrentando o frio cortante ou o Sol ardente, vencendo as dificuldades das manhãs, das tardes e das noites.
Mais ainda: assistindo-os aos tropeções nas calçadas, os semáforos abrindo e fechando mais depressa do que eles conseguem caminhar, o trânsito enlouquecido buzinando às suas costas para que saiam do caminho, as pessoas enlouquecidas pela correria sacolejando-os para lá e para cá como a sugerir que voltem para o conforto de seus lares e aproveitem os últimos anos.
Nada disso, não, nenhum argumento os convence de fugir da movimentação ruidosa das ruas e avenidas, ninguém é capaz de prendê-los ao sofá, às camas e à solidão. Embora idosos, enrugados, talvez até mesmo enfermos, preferem viver da forma mais normal que a capacidade física e cerebral lhes permite.
Eles estão em todos os lugares da cidade, nas cafeterias bebericando cafezinhos ao lados dos amigos jogando conversa fora, lendo jornais ou livros, olhando quem passa e quem entra e sai, nas lojas e nos supermercados fazendo compras, nas livrarias, nas farmácias, atravessando de um lado para o outro das largas ruas, nas padarias, nas confeitarias, nas lavanderias, nas praças. Quem como eu os avista mentalmente os respeita e canta louvores à existência, ri emocionado, pára e os contempla imaginando quanto anos teriam.
Aquele curvado pelo tempo, teria mais de oitenta? A aparência não nega; e a senhora toda enfeitada com colares, pulseiras, bolsa de marca, cabelos e lábios pintados, a pele do rosto já completamente maracujada, lá vai ela decidida para algum lugar da capital, decerto uma sorveteria, talvez uma cafeteria para encontrar as amigas e papear o dia todo. Como acho belíssimo esse lado dos idosos .
Não, em nenhum momento testemunhei hesitação em seus olhares e gestos. Embora caminhem devagar e algumas vezes cansados, seguem intimoratos, vão para onde realmente desejam ir, não demonstram qualquer temor ao impossível, às próximas esquinas, às multidões, não honram o medo. São mais eles, não se preocupam se alguma ameaça sombria do coração lhes perpassa o instante, o amanhã também é deles como foi o ontem e continua sendo o hoje. Parecem personagens de um passado que ainda não passou, que insistem em permanecer se segurando nas pontas, criaturas de um outrora que ousam lutar com o agora, são provavelmente assim, à guisa de folhas agarradas às árvores, malgrado a força do vento que os sacode, da chuva que os castiga e do sol que os escalda.
Tenho-os em conta de titãs destemidos, de guerreiros dispostos a lutar dia após dia a batalha da existência. Por não acreditarem que a velhice é o fim prosseguem, por não aceitarem apoquentar seus dias cuidando de netos insubordinados ou de cães e gatos rebeldes da casa vão em frente, abrem picadas na mata densa, desvirginam veredas e estradas, são vanguarda de uma nova era do viver humano. Parabéns a esses homens e mulheres altivos não subjugados à idade nem às brancas cãs ou à pele engelhada, merecem o reconhecimento geral da sociedade por sua altivez e vontade únicas de continuar semeando a vida, as plantas e a si próprios apesar da ditadura do tempo.
Para mim são dóceis e vigorosos exemplos de que não somente os jovens tem direito à liberdade de fazer as próprias rotas, de pisar as próprias trilhas, de sair por aí à toa e sem destino, quem sabe dando uma esticadinha para a próxima cafeteria no intuito de tomar um cafezinho expresso puro ou com leite e ler as últimas notícias do dia porque, afinal de contas, é preciso estar atento aos acontecimentos do mundo tanto para saber mais quanto para se preparar para o porvir. Precisam estar prontos para o futuro, claro.
Fotos: Gilbamar Bezerra
*Gilbamar Bezerra é advogado, escritor, poeta e mantém o blog
Poesias e Crônicas, onde pode-se encontrar um pouco de seus escritos.