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Venci graças a Deus: o cordel de um vitorioso

 


Oriundo de Mossoró
sou um tanto atrevido
menino que viu pobreza
cabra da peste metido
vi tanta fome na mesa
chorando sem ter certeza
da vida pobre sofrido

Fui pra escola descalço
fiquei na fila da fome
já chorei sem esperança
nada valia meu nome
olhando pro céu chorava
à noite sozinho orava
ajuda sem ter de onde

Eu sonhava ser escritor
ver meus livros publicados
escrevia num caderno
uns textos embaralhados
enquanto o tempo passava
dia e noite estudava
meus dias foram chorados

Menino triste sozinho
testemunha da miséria
faltando água no pote
seca braba, coisa séria,
para todos faltava pão
sobravam calos na mão
fui motivo de pilhéria

Só pensava no futuro
tudo deveria mudar
para isso acontecer
eu precisava estudar
as dificuldades, porém,
acabavam cada vintém
que papai lograva ganhar

Tantas pedras no caminho
lágrimas de sangue chorei
quão difícil era viver
não era a vida que sonhei
continuei estudando
em pouco o tempo passando
me ensinou o que hoje sei

Pulei todos os impasses
enfrentei os meu temores
saltei os obstáculos
batalhei contra horrores
os fantasmas todos venci
embora tudo que sofri
fui além dos dissabores

Querendo ser eclético
Lia obras emprestadas
muitos livros que me deram
ou no lixo encontradas
conheci bons escritores
li os melhores autores
vendi revistas rasgadas

Fiz carrinhos de brinquedo
pra vender na vizinhança
carreguei feiras nos ombros
de olho na esperança
vendi bibelôs nas ruas
revistas de mulher nua
sempre tendo confiança

Nas grandes festas juninas
de foguetes fui vendedor
eu trabalhava direito
como um bom trabalhador
mas de noite estudava
já nas letras laborava
eu queria ser escritor

Apesar do desalento
nada me desanimava
às vezes na minha rede
de tristeza eu chorava
era choro de quem luta
que nasce da força bruta
do leite que derramava

Vieram muitos invernos
acabaram tantos verões
os anos multiplicaram
adormeceram corações
no céu morreram estrelas
nisso eu querendo vê-las
destruía os meus senões

Ultrapassei as barreiras
aos estudos me entreguei
com lágrimas dos meus olhos
um mundo de flores reguei
contudo, guerreiro, segui
da batalha nunca fugi
aonde queria cheguei

Mesmo contra seu destino
esse menino sonhador
nascido na caatinga
que a vida toda estudou
num concurso aprovado
teve seu rumo mudado
de fome nunca mais chorou

...continua

Fotos: WnY

*Gilbamar Bezerra é advogado, escritor, poeta e mantém o blog Poesias e Crônicas, onde pode-se encontrar um pouco de seus escritos.

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Eu sonhava ser escritor e ver meus livros publicados. Escrevia num caderno uns textos embaralhados enquanto o tempo passava. Dia e noite estudava. Meus dias foram chorados.

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