Caminhava com os amigos na praia. Não éramos em muitos. Sentia o crepitar da areia em meus pés a cada pisada na calçada que seguia pela orla. Estávamos voltando para casa, enquanto o sol emergia ainda tímido pelo céu.
Quando já estávamos entrando na parte final do calçamento, encontramos quatro atletas correndo em sentido oposto ao nosso, vestidos a caráter. “Como começam cedo”, pensei. Continuamos andando quando mais a frente quatro outras pessoas abandonavam a calçada em direção a praia. “É preciso um pouco de disposição para enfrentar essa água gelada”, achei evidente.
Chegávamos mais perto do fim, quando avistamos mais um grupo de pessoas vindo a frente. Eram aparentemente animados. Ouvi vozes, melodias, violões. Cantarolavam dançando ao som de suas músicas. Nada dissemos a respeito, continuando nossa caminhada.
Passamos por uma quase cabana, chegando ao fim da orla. Na verdade não passamos. Percebi que eu tinha sido a única. Havia pessoas que eu desconhecia lá. Olhei para trás e então voltei para chamar meus amigos e continuar nossa caminhada. Quando passei novamente pela quase cabana, senti minhas mãos quentes. Só as mãos.
Quando fui chamá-los, vi que eles estavam junto com o grupo que passou por nós a tocar música. “Também sinto partes do meu corpo que estão quentes”, disse um dos meus amigos. Aquilo tudo começou a não fazer sentido. “Vamos, vamos voltar”. Novamente segui andando para o fim da orla. O grupo de músicos ainda os distraía, o que estava me deixando irritada. Eu queria ir para casa. Fiquei dentro da quase cabana por alguns segundos, olhando disfarçadamente para aqueles rostos estranhos. Havia uma menina esguia de cabelos negros, os quais quase cobriam sua face por completo. Minhas mãos ainda ardiam de quentes. O que estava acontecendo? Depois lembrei das pessoas que encontramos caminhando em sentindo oposto ao nosso. Todas elas passaram por nós com pressa. Eu não quis continuar pensando nisso.
Voltei novamente para chamar meus amigos, na ânsia de que eles finalmente me acompanhassem para casa. Fui surpreendida pela menina esguia, que rapidamente enlaçou meu pescoço com seu braço curiosamente branco, num daqueles golpes no qual a intenção é lhe sufocar. Fiquei assustada, mas não foi difícil se desvencilhar daquele bracinho.
Quando encontrei meus amigos novamente, meu pescoço também estava esquentando. Sentia a pele ficando cada vez mais quente. As mãos também continuavam assim. Ouvia meus amigos se queixando da mesma sensação. Numa rapidez igualmente incrível estávamos todos nós dentro da quase cabana. Sentíamos como reféns do “animado” grupo ali dentro. Então as coisas começaram a não ficarem tão animadas assim...
Um dos meus amigos ficou a mercê deles. Foi muito doloroso ver aquilo. A menina branca e esguia começou a arranhar seus pulsos. Arranhou-o com sua unha do dedo indicador. Uma unha preta, podre, que funcionava como lâmina a perfurar sua pele, sem muita dificuldade. E parecia ser só o início. Enquanto eles faziam isso conosco, tocavam uma música alegre, soava alegre.
Eu fui a próxima. Fui arranhada assim como ele. Sangrei. Não estava mais preocupada com meu pescoço e mãos com uma sensação quente fora do comum. Aquela unha podre me atormentava. O vermelho escorria.
Com o meu amigo eles eram mais violento. “Você vai ser o nosso Jesus”, falavam num tom insano enquanto o mantinham imóvel. E o que eu iria ser para eles? Nada mais vinha na minha cabeça a não ser o sofrimento que eu iria passar nos próximos minutos. Meus braços já estavam cortados. Meus pulsos, amarrados. A música continuava a tocar seguindo de pano de fundo para as coisas horríveis que estavam por acontecer.
A mesma música, que exaltava a vida, e estimulava a viver, foi a música que me acordou. Meus braços estavam cruzados, mãos fechadas e pulsos colados um ao outro. Atordoada, com aquela melodia maligna em meu pensamento.
“Tenho que escrever tudo isso”, foi a primeira coisa que pensei. Afinal, foi só um sonho.
Fotos:
Mubina H,
Doug88
*Clara Manuella estuda Ciencias Contábeis na UFRN, é apaixonada por poesia e já lançou seu primeiro livro Diálogos Poéticos e mantém o blog
Manuscritos Poéticos que contem vários de seus escritos.