O semblante sereno e pacato (ao mesmo tempo enigmático) de Raymundo de Sá nos atinge de maneira fulminante e silenciosa. Um misto de sapiência e tranquilidade, que chega a intrigar. Este sentimento se intensifica quando começamos a dividir experiencias a cerca de sua obra que, ainda que de pouca vida, se mostra prolífica.
A inquieta mente deste amazonense de 73 anos, filósofo, engenheiro aposentado e apaixonado por literatura e por Natal, tem pressa em dar vida a traços literários. Entre os já editados estão os livros
Se explicado... Amor não foi (um conjunto de poesias), outro de contos em andamento e um sobre filosofia, também em fase de gestação.
Mas os escritos de Raymundo ficarão pra sempre marcados por seu mais recente lançamento:
Infindável Saudade. Uma trilogia, sabiamente forjada em primeira pessoa, que narra a saga do personagem ‘Mauro’, um homem entrelaçado nos braços de três misteriosas, porém encantadoras mulheres. “Nos dois tomos que compõem o livro eu conto 20 anos da vida do personagem e Mauro dá conta da felicidade e do sofrimento que o amor de suas musas (‘Potyra’ no primeiro Tomo e ‘Renata’ no segundo) lhe proporcionam”, conta Raymundo.
Potyra é uma índia que muito ensina e quebra paradigmas na vida de Mauro, através de sua simplicidade e delicadeza. Já Renata é o contraponto: sulista e totalmente urbana, leva o personagem a novas experiências, ensinando-lhe outros idiomas e abrindo seus horizontes. Isso com apenas 21 anos de idade. Na terceira parte da trilogia (que está por vir), o protagonista encontrará ‘Evelyn’, uma americana que até aparece no segundo Tomo, ainda adolescente. “Evelyn será aquela que irá fechar o ciclo,”, afirma o autor.
Em
Infindável Saudade estão reunidos ‘Potyra’ e ‘As rosas dos dias três’, que marcam o início da trilogia. A obra nos prende a cada linha nos fazendo concordar com Mauro em alguns pontos e, em outras horas, querer a cabeça do indivíduo. Por trás de tudo isso, um intrigante enigma que, segundo Raymundo, será elucidado com a presença de Evelyn. Mas isso só no terceiro Tomo: “Eu ainda estou aguardando ela terminar o doutorado”, explica o escritor com surpreendente realismo e amor por suas crias.
Infindável Saudade não se trata de uma obra autobiográfica, porém seja difícil separar este sentimento em alguns momentos. Seriam sentimentos saudosistas (e nunca antes revelados) de um homem como um outro qualquer, ou ricos indícios de ideologias e utopias (não importando se foram concretizadas) ? “Não é uma leitura fácil”, reconhece Raymundo em tom de
mea culpa e certo desabafo. De fato, ao ler a saga é preciso uma dose a mais de concentração e percepção, para degustar a sutileza com que o autor lança severas críticas aos costumes sociais, preconceitos e pré-julgamentos morais.
Bom humor e simpatia do escriba também nos bastidores da criação. Antes de editar o livro, Raymundo fez uma singela homenagem a um de seus grandes incentivadores literários: o antigo professor de colégio Nelson Saintive, a quem responsabiliza por seu amor pela literatura. “Ele nos obrigava a ler três livros por semana e escrever uma resenha sobre um deles, que era sorteado. Então não tinha como não lermos. Isso causou uma forte paixão pela leitura. Consegui encontrá-lo após tantos anos e pedi para que ele fizesse a correção do livro. Não sei se ele lembrou de mim, mas fez a correção mesmo assim”, conta emocionado.
O lançamento é da Capitania das Artes, com apoio da Promater. O livro pode ser encontrado na
Livraria Siciliano do Midway Mall.