Stress? Ah, não seja tão carrancudo assim

16 de agosto de 2010, às 06h00min
por *Gilbamar Bezerra
 
Sabe aqueles dias em que achamos ser possível dar tudo certo porque o sol, em todo o seu esplendor, amanheceu lindo, as árvores tamborilam suas folhas umas nas outras e as pessoas se mostram simpáticas e sorridentes o tempo todo, sob uma brisa constante? E o que sentimos em tempos assim? É como se nos transportássemos para outra galáxia em meio a flores perfumadas e jardins bem cuidados.

Não acontece muito, bem sei, contudo vez por outra nos vemos assim e nos distraímos com as paisagens mais simples e com as pequenas coisas às quais normalmente ficamos indiferentes ou delas nos esquecemos facilmente. Chega ao nosso coração, por tabela, a convicta impressão de que a cidade e os transeuntes aparentam um inexplicável ar romântico e a felicidade parece tão à mão, tão inesperadamente ali na esquina, à disposição, devidamente no ponto de ser alcançada e vivida.

Dá até um súbito desejo de sair por aí voando. Mesmo que não possuamos as asas próprias das aves, sendo bastante as da imaginação; de ficar ao léu, assim meio lá e meio cá no sentido de estar aqui sem estar, sentado à toa num banco da praça, malgrado todos os compromissos inadiáveis; de mergulhar nas profundezas do mar e, submersos, deixar que passem as horas. Embora não tenhamos a indispensável capacidade dos peixes para retirar da água o oxigênio suficiente à sobrevivência no ambiente estranho mas tendo o sentimento dos sonhos para nos desvencilharmos dessa incapacidade humana.

Nesse tresloucado, porém prazeroso momento, a vontade é dançar alegremente com a primeira dama que der o ar de sua graça e pronunciar frases de carinho para quem muito amamos; é colocar em muitas garrafas mensagens de otimismo, paz e fraternidade, para que os homens se entendam, e lançá-las nos oceanos para serem lidas através dos continentes, é gesticular no tai chi chuan em pleno ato de exercitar-me durante o expediente, em qualquer dia útil, nos horários mais proibidos pela CLT, às favas a circunspecção e as pretensas regras de seriedade que pressionam e nos fazem como máquinas. É quando, então, nos vemos a pensar que é admitido o impossível, em qualquer situação, se tentarmos, se agirmos, se amarmos, se chorarmos de alegria, nunca de tristeza, se nos encantamos com a vida.

Logo, o difícil se torna fácil, o rabugento suaviza o rosto, o antipático desprezível sorri sem perceber, o assassino se arrepende de suas barbáries, o ladrão, chorando, devolve os objetos furtados, o assaltante se transforma num cidadão de bem trabalhador, e assim, em tudo, vamos sonhando e nos entregando à ternura, olvidando as mágoas e os ressentimentos, dando pontapés na melancolia. Ouso devanear, sim, por que não? E não temo a morte, essa indefectível estranheza que atemoriza os seres, pois até ela se distancia, deixa de ser amedrontadora e se molda numa consoladora companheira ao longo da jornada da vida, deixando em seu trajeto odores de rosas ao invés de exalar o cheiro macabro do fim. A dor? Nós a relevamos, já o gozo sobrepujou-a, só vemos alegria.

Ah, vai! E daí que são apenas quimeras? Não é a ilusão um doce lenitivo para mitigar a misteriosa aventura de viver? Por isso eu a revolvo como se fora um balde cheio de biscoitinhos da sorte e com ela rodopio, brinco, salto, rio, corro, me fascino e me esbaldo em completo êxtase.

São aqueles belíssimos dias para os quais entregamos toda a nossa energia positiva, multiplicando-a infinitas vezes. Porque é deveras delicioso soltar as rédeas da imaginação e permitir que transponha as barreiras das nossas limitações e percorra as distâncias na velocidade da luz, muito além se nos for dado poder. E se tudo, afinal de contas, não passar somente de devaneios inconseqüentes, deixe assim, vai, não dê tanta importância à loucura de sonhar, não cobre pragmatismo de quem tem a veia da poesia, não implique por causa dessas veleidades inocentes que não fazem mal a ninguém.

Que seria do nosso mundinho cheio de conflitos sem a ingenuidade e o romantismo dos poetas, essas eternas e maravilhosas crianças que adocicam ainda mais a ternura? Pois não é muito deles refletir sem qualquer motivo sobre esses assuntos de beleza ilusória? Ah, vai, não seja tão carrancudo!

Fotos: Eneas, Lara604, Erlon BR, Fabio Trifoni

*Gilbamar Bezerra é advogado, escritor, poeta e mantém o blog Poesias e Crônicas, onde pode-se encontrar um pouco de seus escritos.

http://www.vivaviver.com.br/plano_geral/stress_ah_nao_seja_tao_carrancudo_assim/810/